quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Coração de Estudante

Por Mariana Monzani

Sair de casa para estudar em outra cidade com certeza foi um dos fatos mais marcantes na vida de Carolina. Hoje, com 26 anos, tem um ar saudosista em suas palavras. Me contou sobre vantagens e os desafios de viver sozinha, longe dos pais, dos irmãos, e, assim, aprender a conviver com pessoas totalmente diferentes, a conviver consigo mesma, e a entender e testar necessidades e limites.

O ano era 2005. Após três anos de cursinho pré vestibular, entrou para a faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Unicamp. Viriam pela frente seis anos de luta, esforço, dedicação, aventuras, saudades e muito aprendizado. Conta como sentiu falta de sempre ter o cheirinho do almoço da mãe esperando por ela todos os dias (o que, às vezes, não valorizamos!), de como sentia falta das conversas de madrugada com os três irmãos – essas, que muitas vezes eram feitas via e-mail ou MSN, quando se encontravam online, quando ela se mudou. Disse que sentia falta até das broncas do pai – quando ela queria sair todo final de semana, e ele achava que ela tinha que ficar em casa e estudar. Mas, na verdade mesmo, conta que estava com medo do que viria pela frente, do que teria que enfrentar, das responsabilidades de crescer e da preguiça que tinha só de pensar em ter que escolher qual pilha seria prioridade: a de livros para ler ou a de roupa suja para lavar...

Mudou-se para uma kitnet, em que morava sozinha. Logo no primeiro ano da faculdade, começou a namorar. As responsabilidades iam aumentando na medida em que passava o tempo. No ínício, todos os finais de semana estava em São Paulo – a família esperava ansiosa pela sua volta, para saber as novidades, contar ou “causos” de Campinas e matar a saudades de quem não estava mais presente todos os dias debaixo das asas dos pais.

Cada semestre, os trabalhos iam aumentando. Os finais de semana iam diminuindo, as visitas também. Carol quase não voltava para São Paulo. Era mais fácil até quando os pais iam para Campinas visitá-la. Aquela visita rápida... Almoçar junto, ou assistir a um jogo de futsal (sim, isso é uma das paixões da vida dela!).

Toda entrega de projeto da faculdade era sempre um parto, um sofrimento, assistido por grandes amigos que encontrou durante aqueles anos e que levará para as outras fases da vida. Amigos estes que a acompanharam nos estudos para as impossíveis provas de cálculo, mas, não menos importantes, os companheiros das viagens inesquecíveis e das festas nas repúblicas mais agitadas!

Lembra, também, das brigas com o namorado, os amigos de São Paulo reclamando sua ausência, os finais de semana mais rápidos que já havia passado na vida... O tempo foi pequeno quando comparado a experiência adquirida durante esse período.
Os frutos estão sendo colhidos. Mais forte, mais independente, graças aos desafios encarados e dos tombos que teve que levantar sozinha, embora tenha tido toda a estrutura e base familiar necessária.

Voltou para casa dos pais no começo de 2011. Agora, pra ficar. Em fevereiro, conseguiu um emprego. Nova fase, nova vida, com a família de novo.

“Agora é esperar pelas novas fases que estão por vir e colocar em prática o que aprendi graças ao investimento de meus pais, à compressão de minha família e amigos, e, principalmente, da vontade e da coragem de vencer que tive. E, sem dúvidas, faria tudo de novo!”

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Nunca mais

por Beatriz Backes


Das decisões que já tomou em toda a sua vida, a mais difícil foi a da separação. Já eram quase 15 anos de casamento, 3 filhos e muitas, muitas situações de violência.

Josimara - ou simplesmente Mara - se casou cedo, aos 18 anos, ainda que suas famílias (a de sangue e a que deu uma vida digna com um emprego) fossem contra. Naquela época, o futuro marido era encantador. Mara se apaixonou pelas palavras doces, pelas flores, pela delicadeza e atenção.

Depois do nascimento do primeiro filho, Washington, com um pouco mais de um ano de casamento, Mara percebeu um certo distanciamento do marido para com ela. O carinho não era mais o mesmo, as palavras se tornaram um pouco mais duras... Mas, para ela, isso era apenas por conta da atenção e do seu tempo que era mais empregado ao bebê do que ao marido.

Veio o segundo filho, Gabriel, e as coisas só pioraram. Quando o pequeno tinha menos de seis meses, veio a primeira violência física. Mara apanhou do marido por não ter preparado o jantar dele.

A frequência desses episódios aumentou com a chegada do terceiro menino: Daniel. Ela conta que o marido já chegava em casa alterado. "Ele nunca chegava cedo... Sempre depois da meia noite. E sempre bêbado".

Após sete anos de violência, algumas visitas ao hospital e à delegacia para exame de corpo e delito, Mara se decidiu. Não podia mais viver daquela maneira, mostrando aos filhos um lado da vida que não é correto, incentivando - ainda que veladamente - a violência e o crime.

Em uma noite, ela fez questão de esperar o marido para comunicar-lhe sua decisão: iria pedir o divórcio. Ele não aceitou. Gritou com ela, a chamou de todos os adjetivos pejorativos e todos os nomes impronunciáveis em uma conversa civilizada. A acusou de traição.

O barulho acabou acordando as crianças, que foram para a sala ver o que estava acontecendo e para assistir a mãe apanhando. O mais velho, Washington, por puro reflexo, avançou sobre o pai. Mas o que poderia fazer um menino de quase 15 anos diante de um homem fora de si?

Aquela foi a gota d'água. Mara, assim que reuniu forças, arrumou suas malas, pegou as crianças no colégio e foi à delegacia. Ainda no meio do caminho, ligou para o filho de sua patroa, o seu Renato, para pedir ajuda jurídica no processo de separação.

Deu-se, então, o início de uma nova fase, que Mara esperava que fosse muito melhor do que a que deixava para trás.


quarta-feira, 23 de novembro de 2011

A construção da utopia


Por Michelle Borges

O feriado de páscoa é sempre uma alegria para os universitários. Representa uma quebra no ritmo dos estudos, um período para relaxar, ir para a praia, curtir com os amigos e comer muito chocolate. Paula adora todas essas coisas, mas na páscoa de 2011 resolveu fazer algo diferente. Sempre quis fazer trabalho voluntário, e quando sua amiga lhe contou sobre “Um Teto Para o Meu País” e o trabalho que a organização realizava, não pode deixar a oportunidade passar. Além disso, sacrificar um feriado na companhia dos amigos não lhe soou como uma grande perda.

Ao chegar à Favela do 21, uma comunidade localizada ao lado de um lixão em Carapicuíba, Paula experimentou um choque de realidade. Recebeu as instruções necessárias para o início do trabalho e ficou designada a construir a casa onde Dona Ana e suas duas filhas - a adolescente Cássia e a pequena Gigi – iriam viver. Paula sempre adorou crianças, e Gigi, com apenas três anos de idade, era a coisa mais encantadora que já vira até aquele momento. As duas logo se tornaram amigas.

Gigi pegou Paula pela mão, convidando-a para brincar no depósito de lixo. A reação da jovem foi de susto, afinal, era impossível descrever tudo o que havia lá. De forma completamente involuntária, advertiu a criança:

- É perigoso brincar aqui. Você pode ficar doente.

A menininha, em sua inocência típica da idade, apenas olhou para Paula e respondeu:

- Tia, pode ficar despreocupada que aqui nem tem coba.

Sem sombra de dúvidas a sensação que teve após escutar essa resposta foi uma das piores que sentiu em sua vida. Só conseguia pensar em como as condições daquela comunidade eram precárias. Crianças – quase todas com as barrigas saltadas e estufadas de verme – brincando em lixões a céu aberto e a impossibilidade de definir a origem da água ingerida pelos moradores – se é encanada, ou não; se é tratada, ou não.

Paula, segurando a pequena Gigi, com outros jovens e Dona Ana

Diariamente, voluntários universitários e jovens profissionais da América Latina lideram “Um Teto Para o Meu País”, realizando a construção de casas para as famílias de assentamentos irregulares e favelas. O objetivo dessa proposta é melhorar a qualidade de vida desses moradores que vivem em situação de pobreza, e ao mesmo tempo denunciar a realidade de milhões de pessoas em todo o continente, envolvendo a sociedade e reduzindo a exclusão social.

Paula entende a ação como um “vamos construir e refletir a sociedade em que vivemos”. Desde que entrou para o Teto, como gosta de chamar a ONG, a sua vida mudou. Seus pais sempre lhe ensinaram a não se conformar com as injustiças, a lutar pelo que é certo e a não julgar. A experiência nas construções lhe ajudou a colocar tudo o que aprendeu em prática. 

Durante a construção em Carapicuíba, ela entrara em contato com uma realidade completamente diferente daquela a que estava habituada; durante três dias viveu a vida daqueles moradores.


- Vivenciar isso por três dias é difícil, e as pessoas que estão aqui há anos? – pensou se questionando.


Com Ingrid, na construção de agosto
Quando perguntada sobre como é saber que está ajudando alguém, Paula respondeu de forma sincera:


- É a melhor sensação do mundo. Ver o sorriso no rosto da família quando entregamos a casa é fora do real. Principalmente, ao olhar para a casa e saber que eu ajudei a construir com a ajuda dos meus amigos. É indescritível.





O Teto mudou a sua maneira de analisar e refletir a sociedade e agora ela é uma pessoa menos alienada e injusta. Ela está decidida a continuar participando do Teto sempre que puder.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Passione

Entre três histórias distintas, Nelina Rita se emociona ao contar sobre a morte da mãe há quatro anos, sobre o nascimento dos netos Vinícius e Júlia e seus dois filhos Kátia e Carlos Roberto, e a viagem definitiva da filha para a Itália.

Pedi que escolhesse uma das histórias e que me contasse com mais detalhes, e mostrar porque aquilo, de fato, marcou sua vida naquele momento. Nelina escolheu, então, falar sobre a filha, sua viagem, os dois anos separadas, e, por fim, o reencontro.

Há cinco anos, Kátia foi para a Itália, trabalhar. Precisava juntar dinheiro, surgiu uma oportunidade de emprego lá e ela não recusou. Foi. Ficou um tempo, trabalhou. Juntou dinheiro. E voltou. Nelina já estava com saudades nessa época, esse período sem a filha já foi bem difícil. Mas tinha o neto e o outro filho para acalentá-la.
Kátia, por motivos pessoais e profissionais, resolveu ir pra ficar e se estabelecer na Itália. Embarcou rumo ao país da bandeira verde, branca e vermelha. Nelina ficou aqui, com o coração na mão, apertado, e sabia que o reencontro iria demorar bastante tempo para acontecer.

“Ela foi para a Itália porque ela conheceu uma pessoa, se gostaram e começaram a namorar pela internet. Foi conhecê-lo, conhecer a família. Todos gostaram muito dela. E eles resolveram se casar.”, conta Nelina. E quando Kátia resolveu ir definitivamente para lá foi para se casar. Está há 3 anos na Itália. Nelina ficou 2 anos sem vê-la.

Ano passado, 2010, Nelina foi para lá, visitá-la, em agosto, época de férias deles. “E quando eu fiquei muito feliz foi quando eu pude ir lá visitá-la, fiquei muito feliz de eu ter ido lá, conhecer o país, os pais do marido da minha filha, meu genro, a Itália”, conta Nelina. Estava muito calor. A cidade era Dolo, região entre Veneza e Pádova. “A cidade muito gostosa, muito tranquila, bonita, a cidadezinha que fica entre as montanhas. Tudo muito organizado. Fiquei um mês lá, passeando, conheci vários lugares que nunca imaginei que veria”, completa.

Ela fala com a filha quase todos os dias pelo telefone. Conversam como se estivessem próximas. Planejam outra viagem, mas nada muito certo ainda. A distância separa as duas, mas o amor de mãe e filha é muito mais forte.

“Uma coisa que não vou esquecer nunca, muito boa essa viagem!”, finaliza.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Happy Feet


por Beatriz Backes

"Sapatear é fazer o coração bater na ponta dos pés" (Luizz Baldijão)



Já aos 8 anos, Luizz já se diferenciava das outras crianças ao começar pelo seu ídolo: Fred Astaire. Ele costumava assistir aos filmes do astro na Sessão da Tarde. Seu grande sonho, a partir daí, era dançar.

Como sua família era muito tradicional - e seu pai, faixa preta de judô -, o sonho foi a princípio ignorado: "Me colocaram para fazer judô e é claro que não deu certo", ele ri. "Para uma parte da minha família, quem dançava era gay".





Aos 17 anos, o garoto deu início ao curso de agronomia na Universidade de São Paulo, em Piracicaba. Apesar de ter achado algo que gostava, Luizz nunca esqueceu a paixão pelo sapateado.

Às vésperas de concluir a graduação, uma escola de danças foi inaugurada bem ao lado do prédio no qual ficava a república onde morava. Sem nem pensar duas vezes, Luizz cancelou as aulas de inglês que cursava e, com o dinheiro que os pais lhe mandavam com esta finalidade, deu entrada na sua paixão.

Para a inauguração da academia, Luizz compareceu à "aula aberta", na qual os professores mostraram os vários estilos de danças. Ele conta que logo ficou encantado com o som dos sapatos e, ao acabar a aula, ele foi direto fazer a matrícula. Nas primeiras aulas, ele era o único aluno, mas a escola decidiu bancar a situação para incentivar a entrada de novos dançarinos.

Luizz, no começo, se sentiu um "patinho fora d'água", mas, motivado por toda a trajetória de seus ídolos e persistente como só ele podia ser, o quase agrônomo insistiu na dança. Claro que ele chegou a trabalhar na área de graduação, como no INCRA, em 1985. "Mas, de repente, o sapateado virou a minha vida".

Ao ganhar, em um programa de televisão, uma passagem para Nova Iorque, o aprendiz se profissionalizou e se internacionalizou. "Lá, eu ganhei uma bolsa de estudos, o que me fez decidir morar um tempo nos Estados Unidos".

A mudança de país, de idioma e de cultura mostrou a ele como este âmbito era deficiente no Brasil. "O nosso país nem tinha, se quer, mercado para isso. Então, quando voltei, eu construí estradas para colocar os meu carrinhos. Depois, mais estradas para os carrinhos seguirem em frente", relata Luizz, que, dessa forma, ajudou a criar espaço para o sapateado americano no país.

Hoje, Luizz dá aulas de sapateado em uma das principais escolas de dança de São Paulo - Anacã -, e tem duas Companhias de Dança: Meninos Sapateadores de Campinas (que trabalha apenas com crianças e jovens de baixa renda) e Tugurugudá, sendo, também, um dos principais nomes deste estilo de dança no Brasil.








Esta foi a participação global de Luizz, na abertura da série do Fantástico.


segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Réquiem para um sonho

Por Michelle Borges

“Se não falar para as pessoas sobre o meu passado, ninguém imagina as coisas pelas quais passei ao longo de todos esses anos”, diz William Correa. Ele tem 40 anos e trabalha como comerciante. Antes disso, ele era dependente químico.

O vício de William em drogas começou quando ele tinha dez anos. Na época, ele havia conseguido o seu primeiro emprego, em uma fábrica de carteiras onde também trabalhavam outras crianças. Lá, elas tinham contato próximo e diário com cola e, por isso, o vício foi desenvolvido rapidamente.

Com o passar dos anos, William entrou em contato com outras substâncias, como o crack, a cocaína, a maconha e o álcool. Ele nunca terminou os estudos e aos 22 anos passou a morar nas ruas. Neste período, foi preso e, por interferência da polícia, foi internado em uma clínica de reabilitação. Pouco tempo depois de sua saída da clínica, veio uma recaída.

Dessa vez, um antigo patrão teve a iniciativa de interná-lo novamente e se responsabilizou por todas as despesas necessárias durante o tratamento, além de fazer visitas regulares ao centro de reabilitação. Quando deixou a clínica, William teve uma segunda recaída e em um mês se encontrava em estado pior do que quando havia sido internado.

Após passar cinco dias acordado consumindo entorpecentes, William tomou uma decisão importante e que mudaria os rumos de sua vida. Ele decidiu ir para a casa de sua mãe, a quem prometeu que passaria a frequentar reuniões do grupo Alcóolicos Anônimos e que se livraria do vício.

Hoje, William trabalha como comerciante no Brás, no centro de São Paulo e frequenta os Alcoólicos Anônimos de Santa Cecília. Ele aprendeu a viver um dia de cada vez e conta a sua história para ajudar pessoas, que como ele, lutam contra o vício em drogas.

Histórias de dependentes químicos como William são tema recorrente em produções cinematográficas. Um exemplo é o filme "Réquiem para um sonho", de Darren Aronofsky, que serviu de inspiração para o título do post. Confiram o trailer abaixo:

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Laços de Família

Por Mariana Monzani

Ele é o Luiz Alberto de Oliveira Monzani, 31 anos, casado, dois filhos. Perguntei sobre o dia mais marcante de sua vida... Disse que me falaria com todos os detalhes, porque realmente foi muito marcante!

“Eu, desde pequeno, sonhei em ter filhos. Sempre que via uma criança, um bebê, queria brincar com ele.”. Foi assim que ele começou a me contar sua história. Foi assim que, mais uma vez, eu me emocionei.Ele me disse que sempre soube que seria um paizão, daqueles que deita e rola com os filhos, que desmonta a casa para ver a risada deles. “E Deus abençoou o meu lar e o da Cláudia, minha esposa. Na primeira vez, com o nascimento da Julinha. Na segunda, com o nascimento do pequeno Luizinho”.

Ele me conta, emocionado, como vibrou com a notícia sobre a gravidez da esposa. Ela chegou a fazer diversos exames de farmácia, até a 1ª visita ao obstetra, até o exame de sangue, e aí sim, a confirmação da gravidez. Foram nove meses de muita ansiedade para os pais de primeira viagem. A gravidez foi tranquila. Luiz cantava para a nenê, conversava com ela, a Julinha na barriga da mãe, pela manhã quando acordava, e de noite, quando encontrava a esposa em casa. Cantava para ela. Contou para todo mundo assim que teve a notícia... Ligou para os pais no dia, antes das 07h00 da manhã, eufórico, contando que seria pai. Relata como uma experiência fantástica!

Chegou o dia do primeiro ultrassom... A emoção de ouvir o coraçãozinho de uma pessoinha que ele nem conhecia foi imensa. E depois, descobrir que era uma menina. Já sabiam que seria a Júlia.

Em uma terça-feira de sol, como qualquer outra, de março de 2006, Cláudia tinha consulta marcada com o obstetra, logo pela manhã, por volta das 08h00. O doutor não deixou-os sair do hospital. Pediu para Luiz ir buscar as malas em casa, porque o grande dia havia chegado. Saiu do consultório, avisou os pais que a nenê iria nascer, avisou os pais da esposa, e que todos eles fossem para a maternidade, acompanhar o nascimento da netinha.

A Julinha nasceu por volta das 14h00, do dia 28 de março. Ele se lembra bem da complicação que Cláudia teve com a anestesia, que até passou mal ao ver o tamanho da agulha da aplicação da medicação e teve que sentar na poltrona, pois estava suando frio. O parto demorou. Ele permaneceu ao lado da esposa, segurando a mão dela até que o médico anunciou o nascimento. Ouviu o primeiro choro. “Foi tudo muito mágico, uma sensação inexplicável! Vi se estava tudo bem com a Cláudia e com a nenê, dei o maior empurrão na porta para a saída da recepção, e lá estavam presentes as famílias. Meu pai ficou branco. Eu gritei ‘Nasceeeeeeeeeu’!”

Acompanhou a Julinha da sala de parto até a chegada ao berçário. Era a bebê mais linda, ele conta. “E, hoje, com cinco aninhos, só nos enche de alegria, por ser a menina amorosa e inteligente que é.”

Veio a segunda parte. Ser pai a segunda vez. A chegada do Luizinho não foi planejada, ficaram assustados e felizes, ao mesmo tempo, com mais um presente que chegava. Ele conta que a Julinha já fazia mil planos para o irmão ou a irmã que chegaria.

Cláudia passou pelos mesmos exames, como da primeira vez. “O médico nos alertou para a questão de um risco na gravidez, tanto eu como a Claudia, ficamos bem assustados no momento em que o médico solicitou um exame para ver como o bebê estaria. Chegamos a conclusão de que não faríamos esses exame, e que, se Deus escolheu isso para nós, estaríamos prontos para receber tudo, estaríamos prontos para o que der e vier”.

Nove meses depois, dia 15 de fevereiro de 2010, uma segunda-feira, nasceu o Luizinho, saudável, grande e guloso, por volta das 21h00, na maternidade Santa Joana. Ele não sabia se fotografava, se filmava, se falava com a esposa, se segurava o bebê... Foi muita emoção. Como se fosse a primeira vez. “Hoje o Luizinho está com 01 ano e 06 meses e começando a falar.”

Um dos vídeos que ele lembra que os filhos adoram e dão muita risada...



E uma música que, apesar de recente, faz Luiz lembrar dos momentos bons com a família e os pequenos que tanto ama - Coldplay, Paradise

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Meia noite em Paris


por Beatriz Backes



Toda vez que Maurício canta essa música para Karina, ela deixa escapar algumas lágrimas de emoção.

Depois de dez dias circulando por Roma e Paris, mais um jantar em um dos belos restaurantes na Cidade-Luz. Karina sabia que seria especial, mas não imaginava o quanto.

Maurício pediu a sobremesa e mais duas taças de champagne – mesmo depois de alguns drinks. “Pensei que eu não aguentaria beber mais uma taça”, comenta Karina, que, no mesmo momento, temeu pelo resultado fina da conta.

Veio a sobremesa e uma nova declaração de Maurício para a namorada. Se a paixão de Karina pela cidade de Paris e pelo homem a sua frente já era grande, depois do que ouviu ainda aumentou. Ele aproveitou o momento romântico, em uma bela noite de férias em um restaurante com teto de abóboda de vidro, para reafirmar o seu amor por Karina e que aquela viagem tinha servido para que ele tivesse certeza de que ela era a mulher que ele sempre quis.

Se com apenas essas palavras Karina já deixava rolar algumas lágrimas, a surpresa seguinte seria decisiva. Maurício se levantou, ajoelhou e retirou uma caixinha de veludo do bolso, com um solitário dentro.

“E por tudo isso, eu queria saber: você quer casar comigo?”

Karina não esperava o pedido. Achava que aquela era mais uma das noites bem planejadas de suas sonhadas férias. Em estado de choque, Karina ouviu Maurício perguntar mais uma vez, para ter certeza de que ela ouvira.

A resposta regada à lágrimas e muita alegria foi o esperado “sim”, brindada com o champagne previamente pedido por Maurício.

“Eu não esperava que ele fosse me propor... Durante toda a viagem, comentei que queria comprar coisinhas para a nossa futura casa, mas, em nenhum momento, ele me deu a impressão de que isso ia acontecer tão rápido!”.

Entre os amigos do, agora, casal de noivos, vários tinham apenas decidido casar, sem um pedido oficial. Maurício comprara o anel ainda no Brasil, antes da viagem à Europa e já tinha planejado tudo. Memorável – era o que ele desejava que o dia 23 de agosto fosse.





quarta-feira, 2 de novembro de 2011

A Viagem

Por Michelle Borges


Camila Blass tinha 16 anos quando viajou para Vancouver, no Canadá, para fazer um curso de verão. Por ser a primeira vez que viajava sozinha para fora do país, a jovem estava com medo. A ideia de ficar hospedada na casa de uma família completamente desconhecida e diferente da sua e que se comunicava em outro idioma era realmente assustadora. “Quando a minha mãe veio com a ideia de eu fazer um intercâmbio, quase surtei. Tinha apenas 16 anos e era muito dependente”, explica.

A PRIMEIRA IMPRESSÃO
O início da viagem não foi muito feliz. Durante a conexão em Toronto, Camila descobriu que a sua mala havia sido extraviada. Ela conta que se não fosse pela aeromoça que a ajudou, talvez nunca mais tivesse visto as suas roupas. “No dia seguinte, recebi a minha mala na casa em que passaria um mês”, conta. A princípio, Camila teve uma impressão negativa da cidade, porém, com o passar dos dias a sua opinião foi mudando. Na época, Vancouver era considerada a melhor cidade para se viver no mundo.

A adolescente ficou hospedada na casa de uma família de origem chinesa. “Eu tinha uma mãe, uma pai, um irmãozinho e uma irmão da mesma idade que eu. Eles eram muito legais. Fomos ao shopping, jogamos golfe e baseball, fizemos churrasco e muitas outras coisas juntos”, ela recorda.

A casa em que morou ficava em North Vancouver, uma área mais afastada e calma, cheia de árvores típicas das montanhas. Camila lembra que logo no primeiro dia, seu pai adotivo lhe ensinou como deveria agir caso encontrasse um urso. “Achei que fosse brincadeira, mas não era. Realmente corria o risco de encontrar um urso no quintal de casa. Ainda bem que só encontrei esquilos e passarinhos”, ela explica com um sorriso.

BONS MOMENTOS
O curso de intercâmbio consistia em aulas de inglês pela manhã, passeios culturais durante a tarde e viagens aos fins de semana. Em um mês, Camila já tinha conhecido toda a cidade e seus museus, parques e shoppings. Ela gostou de todos os passeios, mas lembra com mais carinho de uma viagem que fez para Vitoria, a capital da Colúmbia Britânica. “Foi uma viagem memorável. Um dos melhores passeios que eu fiz foi o whale watching, a gente pegou um bote e foi para o oceano ver as baleias. Foi emocionante”.


Camila também lembra com carinho das amizades que cultivou durante este período de aprendizado. Ela se apegou tanto aos novos amigos que em uma semana já eram uma família. “O fato de sermos  adolescentes sozinhos em um país desconhecido fez que nós nos uníssemos”, comenta. A maioria das pessoas que conheceu por lá era brasileira, mas também conviveu com mexicanos, turcos e chineses. A jovem ainda se impressiona com a facilidade com que se integrou com os novos conhecidos e explica que mesmo viajando sozinha para um país diferente, nunca se sentiu sozinha, pois todos se ajudavam. 


O FIM
Quando o intercâmbio já estava chegando ao fim, Camila já se sentia em casa na cidade antes estranha e desconhecida. Por isso, sofreu muito na hora da despedida. “Sofri muito para voltar, pois, após um mês, já estava muito apegada às pessoas e ao país. Chorei muito nos últimos dias de viagem e nos primeiros de volta ao Brasil”.  Camila conta que os seus maiores problemas são o fato de ser bastante saudosista e se apegar demais às pessoas.

O fim da viagem foi tão confuso e desorganizado como o seu início.  No momento em que foi fazer o check in no aeroporto, Camila descobriu que havia ocorrido overbook no seu voo. Por causa do imprevisto, teve que voltar para a casa em que estava hospedada. “Fiquei feliz bem feliz por ficar mais um dia no país, e foi bom porque ganhei uma passagem para voltar na primeira classe”. 

O IMPACTO
Hoje, aos 21 anos, Camila considera o intercâmbio no Canadá um fato marcante em sua vida, pois lhe ajudou a se tornar uma pessoa mais independente. “Eu era uma adolescente muito bobinha, não me virava sozinha, mas mudei muito com essa experiência”, explica. Foi lá que, mesmo se perdendo, aprendeu a se virar e a andar sozinha de metrô e de ônibus. “Quando voltei para São Paulo, comecei a ser mais independente.  Foi bom passar um mês longe de casa”, ela avalia.  Ela conta que, além de praticar e melhorar os seus conhecimentos da língua inglesa, a experiência lhe ensinou a olhar o outro de maneira diferente, respeitando as diferentes culturas e etnias existentes.





Ao conhecer a história de Camila, me lembrei dessa música da cantora norte-americana Kelly Clarkson. A letra fala sobre se arriscar, encarar novos desafios e amadurecimento.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Diários de Motocicleta

Por Mariana Monzani

“Meu avô, era mecânico na República Tcheca e veio ao Brasil na década de 40, fugindo da guerra e da invasão russa”, conta Jimmy Piroutek. E eu já sabia que por essa frase inicial, as lembranças que ele me contaria seriam ditas com muito carinho por uma pessoa que já se foi faz tempo.

O avô de Jimmy, Sr. Miroslav Piroutek, morava no Mato Grosso e, uma vez, na década de 60, um pequeno avião caiu na fazenda onde ele morava. Depois de algum tempo, ele acabou pegando algumas peças daquele avião e montou uma moto super improvisada, com apenas duas marchas e um pequeno motor de dois tempos. Era uma moto no estilo alemão, que tinha uma cadeira ao lado para um segundo passageiro.

Jimmy e o irmão tinham 7 e 10 anos, foram passar as férias de julho do ano de 1971, como faziam quase todos os anos, na fazenda do avô. Eles andavam na moto todos os dias, incansavelmente, o dia inteiro, e o avô acabou ficando bastante irritado com isso. Para impedir que as crianças continuassem brincando com a moto, o avô usou de um artifício para impedir o fluxo da gasolina, e, dessa forma, não conseguiriam ligá-la.

Na manhã seguinte à “armadilha”, Jimmy e o irmão correram para pegar a moto, e, obviamente, ela não funcionou. Ficaram olhando para a moto durante uma hora, mais ou menos, e pensando o que poderia ter acontecido, e tentando achar um jeito de resolver aquela situação, porque não poderiam falar com o avô, já que, por um motivo óbvio, estava muito bravo com os dois.

Eles não desistiram, e pela insistência, descobriram que o avô havia soltado um caninho de plástico, pequeno, por onde passava a gasolina. Prenderam o cano imediatamente, e saíram com a moto, escondidos. Andaram com a moto o dia inteiro, sumiram pela fazenda. A hora de voltar seria a mais perigosa, o avô saberia... Dito e feito, o avô estava na porta, com as mãos na cintura, batendo o pé no chão.

Quando viu os dois pequenos chegado com a motoca, todos sujos, cheios de lama, até pensou em dar uma bronca neles. Mas Jimmy conta que o avô era uma pessoa de tão bom coração e tão amoroso, que olhou para os dois meninos, sujos desde os pés até a cabeça, virou as costas, saiu andando e fez aquele gesto com o braço do tipo “ah, deixa pra lá, vai...”.

Durante todo o resto das férias, os dois acabaram diminuindo o período que passavam brincando com a motoca do avô, mas foram dias de muita diversão e que deixaram muitas boas lembranças, estas que são lembradas com tanto carinho por Jimmy.

Jimmy fala sobre uma música de Raul Seixas - Gita, de 1974 - que fazia lembrar muito seu avô. Segue o vídeo:

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Aquele beijo

por Beatriz Backes

Aos 16 anos, todos os seus amigos já tinham beijado alguém. Ele estava esperando a pessoa certa. “Não que eu quisesse casar com a primeira pessoa que beijasse, mas não queria desperdiçar esse momento especial, do qual eu me lembraria o resto da vida, com uma pessoa qualquer”. Para Felipe, tinha que ser especial.

Em janeiro de 2008, ele foi passar as ferias da escola em Três Corações, onde alguns de seus parentes moram. A terra do Pelé, como ele mesmo diz. Hoje, a cidade lhe traz recordações de sua infância e seu crescimento. E ele guarda uma grande lista de amigos de lá, talvez maior do que a de amigos de sua própria cidade, São Paulo.

Como a cidade é pequena, a diversão de Felipe e de “um bando de adolescente”, como ele mesmo coloca, que ainda dependem da permissão dos pais era ficar em casa, assistindo filmes, brincando com jogos de tabuleiro e videogames, tocando violão, cantando e ressuscitando brincadeiras "antigas".

E foi em uma dessas brincadeiras na casa dos amigos que ele viu as coisas mudarem de figura. “Eu nunca tinha ficado com ninguém, nem meninos nem meninas, mas já sabia que os meninos me atraiam muito mais. Era como se eu só estivesse esperando para ter a confirmação”.

Dentre seus amigos, Marcelo se destacava. Pouco eles tinham conversado, mas a impressão que ele passara em Felipe já fora o suficiente para que este o considerasse uma boa pessoa e extremamente bonito. E essa influência era forte o bastante para que Felipe se sentisse envergonhado em se aproximar e conversar com ele – algo diferente de seu feitio normal.

Em uma de suas tardes de férias, ele se reuniu aos amigos na casa de um deles para uma nova sessão de brincadeiras. Ao escurecer, a sugestão foi a clássica “Gato Mia”. A diferença deste dia para os demais era a proximidade entre Felipe e Marcelo naquele dia. “Apesar do frio na barriga que eu sempre sentia quando estava perto dele, eu conseguia conversar com ele sem tremer”.

Durante uma das rodadas, Felipe ficou sem esconderijo. Marcelo e uma outra amiga estavam agachados atrás de um armário e ele decidiu que iria para lá também. O espaço que já era pequeno para duas pessoas, se tornou minúsculo para três.

Felipe ficou frente a frente com Marcelo. O pegador esbarrou em alguma coisa, fez barulho e assustou Felipe, que se desequilibrou. Marcelo o segurou e gesticulou pedindo silêncio. Nada disso importou para o menino que quase estragara a brincadeira com seu jeito assustado. O contado da pele de Marcelo com a sua lhe causou um arrepio. Ele sentiu uma corrente elétrica percorrer seu corpo em frações de segundos.

Em uma outra rodada da brincadeira, Felipe e Marcelo acabaram se escondendo no fundo de corredor. Enquanto o pegador se movia, os dois se aproximavam mais e mais. Até que o primeiro não tinha mais para onde ir e eles se viram frente a frente mais uma vez, perto o suficiente para que um sentisse a respiração do outro.

Quem deu o primeiro passo, ele não sabe dizer. “Foi algo tão natural!... Eu estava tão envolvido no momento que esqueci do mundo – e inclusive do pegador vendado que estava perto de nós”.

A chamada para a realidade veio com o esbarrão que a terceira pessoa na cena deu em um interruptor e que acendeu a luz do local.

Não houve choque ou arrependimento ter acontecido com um garoto. “Foi tão simples que eu só estava pensando em como eu tive sorte por ter dado meu primeiro beijo em alguém especial”.


Felipe ainda diz que teve crises de identidade na vida, “mas a partir daquele momento eu tive muita certeza de quem era e do que queria. Eu sabia que tinha mais para "experimentar", mas não fiquei preocupado com isso e deixei as coisas acontecerem”.




Qual a relação do vídeo acima? Essa é uma de suas peças de teatro favoritas e foi um dos DVDs selecionados para a viagem de férias por Felipe. Nenhum de seus amigos de Três Corações tinha assistindo ainda. Ela reaviva o momento por resumir o que foi o mês de janeiro de 2008 para Felipe: muitas risadas, diversão boba de adolescentes e bem estar. E também por ele ter assistido a ela com Marcelo, de mãos dadas por baixo de um edredom.




segunda-feira, 24 de outubro de 2011

A Missão

Por Michelle Borges


O dia estava quente e ensolarado, e a música tipicamente boliviana soava alto. Os vendedores atendiam os seus clientes da forma mais atenciosa possível. O cheiro de comida exalava. Era hora do almoço.

Em uma barraca de DVDs pirata, logo ao lado, pendurado no suporte, algo diferente chamava a atenção dos transeuntes: um tipo de quadro metálico com figuras cujos traços indicam a arte andina. Logo abaixo, pendurados, se encontravam alguns amuletos da sorte.

- Qual é a sorte?

- Como? – perguntei, assustada, ao homem que surgiu abruptamente na minha frente.

- Qual é a sorte? – perguntou novamente. No olhar uma expressão que indicava que seu questionamento era óbvio, assim como a sua resposta para tal.

Continuei parada, sem compreender absolutamente nada e com um ponto de exclamação imaginário desenhado na minha testa. Sem esperanças, o homem respondeu:

- Nenhuma. Você faz a sua sorte. Muita gente pensa que o amuleto traz sorte, mas na verdade, nós levamos a sorte à ele.

E foi assim que conheci Inti Roman. Na feira da Kantuta, situada no Pari, próximo à estação de Metrô Armênia, na central de São Paulo. O local é uma espécie de ponto de encontro de bolivianos que vivem na capital paulista, onde podem entrar em contato novamente com a cultura de sua terra natal e encontrar pessoas, que como eles, vieram ao Brasil para tentar uma sorte melhor na vida.



Inti Roman é um índio da Nação Ketchua e quando perguntado sobre o seu país ou cidade de origem, sua resposta foi tão direta que a minha primeira reação depois de ouvir foi levar um susto, e depois sorrir. Para mim, aquele homem só podia estar de brincadeira. Eis a recriação do diálogo:

- De onde o senhor vem?

- Do mesmo lugar que você: do Planeta Terra.

Depois do choque, entendi que a minha compreensão do mundo e a de Inti Roman são completamente diferentes. Ele não se denomina boliviano, mas sim um cidadão do mundo, pois compreende que o planeta é de todos, e que essa separação por territórios e países só serve para criar as diferenças, o preconceito e a intolerância.

Natural de Cochabamba, situada na região central da Bolívia, Inti Roman era um artista. Fazia música e também os seus quadros em metal para, assim, difundir a arte milenar andina. Tudo isso mudou há 15 anos, quando recebeu o seu chamado espiritual para o xamanismo.

Após “tomar uma planta”, Inti Roman teve uma visão, que lhe dizia o que deveria fazer e qual era o seu destino. Ele deveria vir a São Paulo, onde iria realizar palestras sobre o xamanismo.

Por isso ele vai à feira da Kantuta todos os domingos. Não só para divulgar a sua arte, mas também para fazer contatos. O xamã conta que antes de receber o seu chamado, ele já conhecia São Paulo, pois costumava vir à cidade para comprar os metais para a sua arte. Ele passava correndo pelas ruas, pois sentia uma energia negativa no ar.

Ele não tem critérios para escolher os lugares onde realizará suas palestras ou as pessoas a quem deverá falar. Ele compreende que é importante não ter preconceitos tanto de quem fala, como de quem ouve. Ele também menciona que a cultura andina perdura há muitos milênios e que desde o seu surgimento, não sofreu alterações, sendo incompreendida e encarada muitas vezes de forma ignorante pelo mundo ocidental. Por isso, sempre distribui os seus cartões de contato, para que as pessoas possam perceber o xamanismo modifica a vida e a visão de mundo das pessoas.

Grande conhecedor também de astrologia, o boliviano identifica o chamado signo astrológico de um pessoa e consegue definir sua personalidade através dele e do comportamento. “Eu escolhi o signo da minha filha. Queria que ela fosse sagitariana”, comenta ele.

Inti Roman divide a sua vida em dois momentos: antes e depois do chamado que recebeu. A partir dele, mudou de cidade, de pais, de idioma e profissão. Sua nova missão de vida é transmitir uma nova percepção do mundo, a partir do conhecimento de seus ancestrais e de plantas expansoras da consciência.


quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Rede de Corrupção

Por Mariana Monzani

Desconfiança. Essa é a palavra que define a relação de Guilherme Valquer, 20 anos, com seu pai, Vilmar. Tudo isso começou há três anos quando Vilmar comprou um computador, e o instalou no porão da casa, pertinho da lavanderia - lá foi onde ele começou a passar grande parte dos dias, trabalhando e fazendo projetos no AutoCAD.

Guilherme conta que sua família era muito unida há alguns anos. Passavam os finais de semana juntos, as refeições eram sagradas, em que todos deveriam estar sentados à mesa, e conversavam sobre diversos assuntos nestes momentos de união. Diz que os pais sempre se mostraram como o típico casal do século passado: se casaram, tiveram filhos e nunca mais se separaram. “Nunca os vi discutindo e eles tinham uma relação aparentemente sadia e de respeito, pareciam ter saído dos contos de fada, até que um deles comeu o fruto proibido”, e é assim que ele começa a contar um dos fatos que mais marcaram sua vida.

Quando Guilherme precisava do pai, era só descer as escadas até o porão e entrar na lavanderia, e ele estaria lá, no computador. Mas era ele entrar na sala, e, rapidamente, seu pai minimizava todas as janelas abertas no monitor. Ocorria o mesmo quando a mãe de Guilherme, Dona Nalva, aparecia... Ela não era inocente. Não era ingênua, só não entendia muito de tecnologia. Veio, então, a pergunta que Guilherme talvez não esperava “Filho, dá pra ler tudo o que a pessoa escreve em uma sala de bate-papo, por exemplo?”. Ele respondeu que de alguma maneira, sim. E, sem entender o ocorrido, questionou a mãe sobre os motivos daquela pergunta. Dona Nalva disse que Vilmar passava muito tempo na frente do computador e achava que ele deveria estar viciado nessas tecnologias.

Não precisou muito mais que isso para que Guilherme pudesse entender o que estava acontecendo e fazer as ligações entre todas as vezes que viu o pai, nervoso, camuflar as atividades no computador e a conversa que acabara de ter com a mãe. Decidiu tomar uma atitude, mesmo que isso significasse descobrir a verdade e magoar sua mãe.


A armadilha
Ele esperou a oportunidade de não ter ninguém em casa e colocou como missão desmascarar o pai, caso fosse realmente necessário. E aí foi... Ficou sozinho um dia, e não teve dúvidas: ligou o computador do pai, abriu o histórico e lá estavam as conversas das salas de papo. Ele não queria e não podia acreditar, no primeiro momento, mas continuou buscando por mais material que pudesse incriminar o pai, o tal material suspeito. Entrou numa sala qualquer de bate papo, mas não obteve sucesso, pois o preenchimento automático do navegador estava desligado, e o computador não salvava nem endereço de e-mail e nem a senha para conexão. Pensou numa saída e em uma segunda armadilha: ativou o preenchimento automático das páginas da internet, assim, quando Vilmar usasse a página, estaria salvo ali.

Dava-se por satisfeito, quase desligando o computador, quando viu a janela do MSN aberta, com a senha no automático. Não teve escolha... Entrou e ativou o registro de históricos das conversas. A armadilha estava pronta. Não era difícil de cair nela. Era só uma questão de tempo para Vilmar cair na armadilha e Guilherme descobrir o que Vilmar fazia, e fazia questão de manter escondido. Boa coisa não era. Guilherme já desconfiava. A relação já estava abalada desde então...


Os fatos
Guilherme foi paciente, precisava recolher muitas provas, e que essas fossem concretas. Voltou ao “escritório” do pai duas semanas após ter-lhe colocado uma armadilha. E “voilà”! Tudo estava à sua vista, tudo aquilo que Guilherme não queria que se confirmasse. Tudo o que foi escrito nas salas de bate-papo neste intervalo de duas semanas, realmente, era bem suspeito. Nas conversas, Vilmar perguntava para mulheres suas idades, local em que moravam, o que faziam, pedia seus contatos, e passava o endereço do MSN.

A segunda etapa era revirar os históricos do Messenger. Bastou abrir o primeiro histórico para que confirmasse algumas de suas suspeitas: ler que seu pai marcava encontros com outras mulheres e aquilo foi o bastante para Guilherme esquecer que seu pai tivesse um pouco, que fosse, de dignidade.

Guilherme só sabia de uma coisa, que a mãe não merecia passar por aquilo. Não podia deixar que nada magoasse sua mãe e resolveu agir. Resolveu colocar Vilmar contra a parede, deu um ultimato e foi bem direto: “Eu sei o que você anda procurando na internet”. Ele contou que o pai arregalou os olhos, assustado e permaneceu calado. “Por que?”, questionou Guilherme. Vilmar não negou. Na verdade, não teve nenhuma reação. Os fatos falavam por si próprios. Gaguejou, mas acabou confessando.
Foi dado um ultimato a Vilmar. Uma semana era seu prazo para que confessasse tudo para Dona Nalva. Caso contrário, Guilherme contaria.


A relação abalada
Após o fim do tempo que Vilmar tinha, contou para Guilherme que havia conversado com Dona Nalva. Ele já sabia, pois chegou a ouvir por detrás da porta trechos da conversa entre os dois, mesmo que fosse constrangedor. O pai contou a Dona Nalva que havia fraquejado. Dona Nalva só foi capaz de perguntar se era aquilo mesmo que Vilmar queria.

Dona Nalva foi capaz de perdoá-lo. Tudo, aparentemente, voltou ao normal entre a família. Mas entre Guilherme e Vilmar, não. Quase nada restou. A relação ficou abalada. Só sobrou a educação do “bom dia” e conversar sobre assuntos básicos, como a mensalidade da Universidade. Guilherme não se refere ao pai como pai, o chama pelo nome. Não confia mais no pai, não acredita no que ele diz. Vilmar, por muitas vezes, tenta estabelecer uma relação de pai e filho com Guilherme, mas permanece frustrado, pois, para Guilherme, confiança é uma só. “Sorte a dele que não puxei isto da minha mãe”, encerra Guilherme.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

À procura da felicidade

por Beatriz Backes


Daniela sempre teve como sonho ser famosa. Mas, para ela, isso era impossível na sua cidade Natal, em Cachoeiro do Itapemirim, no Espírito Santo. “A cidade era muito pequena”.

Outro sonho de menina seu era conhecer a Xuxa. Ela sabia a letra de todas as músicas, todas as coreografias, tinha um microfone de brinquedo igual ao da apresentadora. E, aos 16 anos, Daniela teve a oportunidade de concretizar dois sonhos de uma vez.



O ano era 2001 e a Rainha dos Baixinhos iria iniciar uma nova fase na TV Globo e precisava de um novo elenco para compor as conhecidas Paquitas. Sem pestanejar, Daniela passou a mão em suas coisas, montou uma mala e fugiu de casa rumo a São Paulo, onde a seleção seria feita.

Durante a viagem de ônibus, a menina ligou para uma prima que morava na capital e pediu para passar uns dias na casa dela. Também ligou para os pais e contou o que estava planejando.

A mãe, dona Tereza, desesperada, ordenou que a menina descesse na primeira parada do ônibus e voltasse para casa. Mas, depois das lágrimas da filha e a explicação de todo o plano, o seu coração de mãe amoleceu e desejou toda a sorte do mundo para Daniela.

Daniela chegou em São Paulo e morou com a prima por, aproximadamente, duas semanas. Não conseguiu dividir o apartamento com ela. “Nossos santos não bateram”.

O teste para Paquita também não funcionou. Mas ela não desistiu de ser famosa.

E durante todas as tentativas, Daniela descobriu o seu amor pela dança e pela música: sua verdadeira vocação.

Depois de sair da casa da prima, Daniela morou em um pensionato de freiras que não compreendiam como uma menina de 16 anos tinha fugido de casa para ser Paquita da Xuxa e estava sozinha em uma cidade como São Paulo.

A próxima casa foi uma quitinete, em um prédio simples na periferia da região oeste. “Tinha todo o tipo de gente morando lá: famílias inteiras, idosos, um grupo de hippies, um menino que usava e vendia drogas, um travesti...”

Hoje, ela é atriz de musicais e tem o seu próprio apartamento na Vila Madalena. Daniela conta que não teria conseguido o que tem hoje se não tivesse cometido a loucura de fugir de casa e que não teria amadurecido tanto em tão pouco tempo.