quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Nada é para sempre

Por Mariana Monzani

Miroslav Piroutek, que saiu da Tchecoslováquia fugindo da 2ª Guerra Mundial, tcheco de sotaque forte e marcante, voz grossa, andar com dificuldade e um cigarro sempre à mão, faleceu em 1989, de insuficiência respiratória. Isso aconteceu quando Melissa Piroutek tinha apenas 3 anos e ainda não possuía muitas lembranças de seu avô, mas o pouco que lembra, a fazem sentir muita falta dele.

Ela não se lembra do dia exato em que seu avô veio a falecer, mas se lembra de ir até o velório, e assistir ao enterro, mesmo sem entender o que estava acontecendo ali, incomodada e com medo, vendo seu tio chorar sem parar – curioso para ela, uma vez que essa cena nunca tinha sido presenciada. Sabia que estava lá pelo seu avô, mas não sabia o motivo. Não sabia que ele não voltaria mais.

Melissa não sentia tristeza, ela sabia que o avô havia morrido, mas não sabia o que isso significava. Esperava o carro com sua mãe, enquanto seu pai foi buscá-lo no estacionamento, só estava com frio e cansada por ter permanecido em pé tantas horas, e o que queria era entrar no carro logo e ir para casa.

Quando Melissa era pequena, seus pais trabalhavam fora e a deixavam na casa de seus avós, seu Miroslav e Dona Nair. O avô estava sempre lá, mas a maior parte do tempo permanecia no quarto, porque já estava bastante doente. Na semana seguinte, a rotina não foi diferente e Melissa foi todos os dias para a casa da avó, mas Seu Miroslav não estava mais lá, nem naquele dia e nem nos outros que viriam.

Melissa, emocionada, conta que ainda não havia percebido a ausência do avô. Aliás, havia percebido, não tinha tomado consciência que a morte dele significaria ele não estar mais presente e que ela não o veria mais. Ao descobrir isso, a dor foi muito intensa para uma menina tão novinha. Chegando a essa conclusão, sua mãe, D. Vera, não se omitiu em responder as questões da filha, questionada muitas vezes sobre o “desaparecimento” do avô, para onde ele poderia ter ido, e sempre respondia que agora, onde ele estava, se sentia melhor, pois não fumava mais, não andava mais com tanta dificuldade, e não estava doente. E, dessa forma, com a mãe respondendo, pacientemente, as questões que intrigavam a Melissa, ela passou a aceitar melhor a ausência dele.

Esse foi um dos fatos que mais marcaram a vida da Melissa. Hoje, com 24 anos, cineasta, conta que esse foi o primeiro contato que teve com perdas de qualquer tipo e define a perda do avô como algo que “até então nunca havia passado pela minha cabeça que uma pessoa que eu amava um dia pudesse deixar de estar lá ao meu alcance.”

A saudades e as lembranças só aumentam quando seu pai escuta Against the Wind, de Bob Seger. Segue o vídeo:


segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Vale-Tudo

Por Beatriz Backes



Fantástico. Essa foi a descrição de uma recém-formada em Farmácia ao descrever a experiência de trabalhar em uma das maiores indústrias mundiais do ramo. O brilho nos olhos e o sorriso são suficiente para completar a descrição.


Mariana Sobral Backes Costa nasceu em 10 de maio de 1988 mas definiu como uma das datas mais importantes de sua vida o dia primeiro de março deste ano. E o motivo é aquele que todos os estudantes ou graduados em qualquer área deseja alcançar: o reconhecimento de todo seu esforço por meio da contratação em uma grande empresa.


“É o reconhecimento de toda a dedicação de quarto anos de faculdade”, explica ela sobre esse momento vivido. “É quando posso colocar em prática toda a técnica e conhecimentos apreendidos”.


Mas, para tudo isso se realizar, quarto etapas foram cumpridas com sucesso: envio e seleção de currículo por um site de recursos humanos terceirizado, uma prova online de conhecimentos gerais e específicos, uma dinâmica de grupo e uma entrevista com o gestor responsável pelo departamento na indústria.


Porém, mesmo que o desempenho fosse excepcional na seleção, nada teria dado certo se não acontecesse em um Período de reestruturação da empresa. “A Pfizer tinha aberto 8 vagas no mesmo setor. E isso é uma coisa extremamente rara. Hoje, tem muito mais profissional do mercado do que vagas”.


E se encaixar no perfil da empresa foi fundamental, acrescenta Mariana. Seu temperamento e perfil – fortes o suficientes para suportar o ambiente de pressão, mas, ao mesmo tempo, tranqüilos para conseguir lidar com ele – foram decisórios para a contratação e a transformação de mais um primeiro de março em um dia especial.


Toda a dedicação no período universitário, as iniciações científicas, a participação na fundação de uma farmácia escola e os estágios não-remunerados também capacitaram-na para enfrentar um ambiente de trabalho “real”. Não adianta ser um aluno exemplar se o seu comportamento não depõem a seu favor, alerta ela, enquanto se lembra de colegas de graduação que, ainda que dedicados, não conseguiram boas colocações no mercado de trabalho.


Hoje, são horas e horas dedicadas a testes e experiências de substâncias e matérias-primas, das quais, grande parte noturnas e cumpridas nos finais de semana, dentro de um laboratório. “E essa é a melhor parte”, confessa Mariana, já que, em um dia de semana comum, o laboratório é dividido por mais de 100 analistas e, no seu horário especial, por apenas 4. “Mas, ainda assim, temos que lidar com todos os problemas de máquinas e demandas praticamente sozinhos”.


O maior desafio? Raciocinar rápido o suficiente para cumprir prazos sem cometer erros nas análises. “E se acabo matando alguém por erro nas análises dos remédios?”


A sensação de vitória ainda é muito presente. Tão presente que, quando perguntada uma possível trilha sonora para este momento de sua vida, não há dúvidas: Queen. Vale tudo quando se trata de uma conquista.


quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Cidadão Brasileiro

Por Michelle Borges
Com a mãe, no dia da formatura, em 1985.

“Podem me chamar de qualquer coisa, menos de medroso”.

Com essa frase, o advogado autônomo Enéias Teles concluiu o seu depoimento. Nascido no interior de Minas Gerais, mais precisamente na cidade de Teófilo Otoni, sua história é a do típico brasileiro que sai de uma cidade pequena e busca as melhorias oferecidas pela vida nos grandes centros urbanos. “Meus pais são baianos, e como meu pai passou em um concurso público em Teófilo Otoni, minha família morava lá. Quando tinha três anos de idade, minha família se mudou para Vitória da Conquista, no sul da Bahia”.

Apesar de viver em condições humildes, Seu Isaurino e Dona Ornelinda sempre fizeram o possível para que seus filhos – quatro meninos e duas meninas – tivessem acesso à educação e uma infância normal dentro dos padrões das décadas de 1960 e 1970. Foi em Vitória da Conquista que Enéias aproveitou os seus dias de criança, se divertindo com os amigos e irmãos, e frequentando, até a 5ª série, o Centro Integrado de Educação Professor Luiz Navarro de Brito. Depois passou a estudar no Instituto de Educação Euclides Dantas, onde permaneceu até o primeiro ano do segundo grau.

Ele conta que, aos 15 anos trabalhou por um breve período como ajudante de sapateiro e, mais tarde como vendedor de jornal para ajudar nas despesas da casa e para ganhar experiência. “Do dinheiro que ganhei vendendo jornal, meu pai ficou com tudo e comprou apenas uma camisa branca para que eu usasse na escola”.

“Eu nunca tinha pensado muito no que eu gostaria de ser até quando completei 16 anos de idade”. Foi então que, em razão de seu envolvimento com a igreja (ele frequentava a Igreja Adventista do Sétimo Dia), resolveu que seria pastor e que, para isso, precisaria se mudar para um internato em São Paulo, onde iria concluir o segundo grau e iniciar o curso de teologia. Dois meses depois de completar 17 anos, Enéias começou a perseguir o seu sonho quando surgiu a oportunidade de se mudar para a capital paulista, e assim abandonou a pequena cidade no interior da Bahia.

O ano era 1979. O Brasil enfrentava os anos derradeiros da Ditadura Militar, então sob o comando do presidente João Figueiredo, e ainda sofria com os efeitos da Crise do Petróleo, que assolou o mundo no início daquela década. Apesar de estar inserido naquele contexto de dominação militar, Enéias pouco se lembra de estar vivendo em uma ditadura, e conta que só teve conhecimento do cenário político brasileiro, quando chegou a São Paulo. “Gostava muito do Chico (Buarque), naquela época ele estava voltando para o Brasil, mas eu não entendia o que estava acontecendo e gostava do Chico porque gostava”. Uma das músicas do cantor e compositor que costumava escutar era “Apesar de Você”. Aquela que diz “amanhã vai ser outro dia”.

“Eu tenho certeza de que se não tivesse vindo para São Paulo naquela época, eu não teria conseguido as coisas que eu consegui: constituir uma família, um pequeno patrimônio e também a oportunidade de fazer outra faculdade – de Direito”, conta. Ele explica que após um tempo trabalhando em uma instituição religiosa, muitas razões o levaram a um desentendimento com uma pessoa e, por esse motivo, acabou perdendo a sua posição na instituição.  “Na época, eu tinha o curso básico de contabilidade, e passei a trabalhar com isso para dar sustentação para a minha família e mais adiante eu comecei a fazer o curso de Direito à noite”.

Um fato curioso é que, apesar de sua esposa ser de Vitória da Conquista, eles só se conheceram no internato. Assim como Enéias, Graciane também veio para São Paulo para fazer faculdade – no caso dela, de enfermagem. “As coisas só aconteceram porque estávamos aqui em São Paulo”. Ele afirma que poderiam ter se conhecido naquela pequena cidade, mas possivelmente não teriam namorado. 
Enéias com a esposa, Graciane, em uma escuna em Itapema, SC, 1985


Atualmente, aos 49 anos (hoje é seu aniversário!), Enéias vive há 26 com a sua esposa, com quem teve duas filhas – a mais velha com 21 anos e a mais nova com 18 – que estão em fase universitária. No rosto, a expressão de missão quase cumprida no que diz respeito à criação de suas meninas, que “já estão praticamente preparadas para encarar a realidade futura por elas mesmas”.

Ao se lembrar de tudo o que viveu até hoje, Enéias classifica a sua vinda para São Paulo como um fato marcante, um momento decisivo. Quando se pergunta como a sua vida teria sido sem a mudança para a cidade grande, a resposta que obtém é baseada no que aconteceu com muitos de seus amigos que permaneceram em Vitória da Conquista e que se tornaram balconistas, caminhoneiros ou desempregados. “Nada contra, mas não era o que eu queria para a minha vida. Foi muito importante eu tomar essa decisão (de se mudar para São Paulo) naquela época. Minha família não tinha condições de me conceder aquilo que acabei conseguindo aqui. Vale dizer que São Paulo é uma cidade de oportunidades”.



segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Diário de uma paixão

Por Mariana Monzani
 
Ela nasceu em 1927, no bairro do Bom Retiro. Ele nasceu em 1926, em Olímpia. 11 meses separavam os dois. Ela, filha de Luzia Lourenço e Miguel Pagano, italianos de Sasso de Castaldo, eram primos (a mãe de Miguel era irmã do pai de Luzia). Ele, filho de Sebastiana da Silva e Jordano Bruno Monzani, paulistas de Amparo, sem parentesco algum.
Entre idas e vindas do bonde, todo dia, uma troca de olhares entre D. Thereza e Seu Antônio. Ela, indo trabalhar na fábrica de louças Zapi, na Vila Prudente. Ele, esperando o bonde para ir para a Mooca, onde trabalhava na loja de calçados do Seu João.
Ela tinha 25 anos. Ele, 26. No dia 20 de maio de 1950, Seu Antônio talvez tenha criado coragem, e tenha resolvido avançar um pouco mais do que permanecer apenas com olhares, entre idas e vindas do bonde, na hora do almoço. Resolveu falar com a D. Thereza. Acompanhou-a até o portão de casa e lá permaneceram conversando. Na despedida, um pedido de namoro. Um fato bem marcante na vida de Dona Thereza.
O namorou durou 2 anos e meio. Suficiente para um pedido de casamento, e o casamento em 24 de janeiro de 1953. Todas as datas ditas com muita lucidez e rapidez pela Dona Thereza. Chamo-a assim por respeito e carinho, como neta que sou. Porque a vejo, como toda vez que conta alguma história sobre meu avô, os seus olhos brilharem, vejo o carinho e o amor que existia e ainda existe.
Moravam na Rua da Mooca, 3779, em cima da loja de sapatos do Seu João. 30 de dezembro de 1953 nasceu Celso, o primeiro filho do casal. Dois anos depois, em 1955, se mudam para a Rua da Mooca, 2402, em cima da loja do Seu Quital. Em 8 de setembro de 1955 nasceu César, o segundo filho do casal.
Depois de 7 anos, em 1962, mudaram para o número 2396, na Rua da Mooca, numa loja de roupa de noivas e de crianças, em que a Dona Thereza trabalhava como vendedora.
Em 1967 mudaram para o Parque São Lucas, numa casa de dois cômodos. Celso com 14 anos, e César com 12. Seu Antônio foi trabalhar numa loja de calçados, as Lojas Eduardo, na Brigadeiro Luiz Antônio.
Seguiram a vida assim. A Dona Thereza até hoje conta como tinha medo de andar de carro - um fusquinha azul pavão e, depois, uma Brasília vermelha - com Seu Antônio, que era um pouco barbeiro, não enxergava e não dirigia muito bem. A cada nova história, uma nova risada, porque sempre tem um novo detalhe. Acho que é por isso que até hoje carrega o trauma da direção, nunca senta no banco da frente do carro, e fica aflita com qualquer um que dirija o veículo.
Eles viram a família crescer aos poucos. Veio a primeira neta, a Fernanda, em 1978, a Renata em 1979, o Luiz e o Ronaldo em 1980, a Roberta em 1981, a Carolina em 1985 e a Mariana 1989. Todos os domingos estavam todos juntos na casa de Seu Antônio e de Dona Thereza, o que rendia uma bronca na Dona Thereza toda segunda-feira, por conta da bagunça dos netos no dia anterior. Embora uma boa pessoa, Seu Antônio tinha um gênio bem difícil. Passaram uma vida de 40 anos juntos, até Seu Antônio falecer. Faleceu dia 12 de novembro de 1992, de um infarto. Tinha 66 anos.
Dona Thereza sempre teve o apoio da grande família que construiu. Desde 1983, o irmão mais novo morava com eles. E ela não ficou sozinha. Os netos foram crescendo, constituindo família. Hoje é mãe de 2 filhos, avó de 7 netos e bisavó de 7 bisnetos. Tem 84 anos e muitas boas histórias para contar... Tanto é que não queria contar apenas sobre o amor da sua vida e de seu casamento. Vale uma segunda, terceira... uma quarta história! No final, cantou uma música italiana, que não lembra o nome, mas que sente saudades...
Escrevendo esse relato me veio à lembrança um poema de Manuel Bandeira, “Cartas de meu Avô”. Segue um trecho, mas recomendo a leitura completa:
“(...)O meu semblante está enxuto/Mas a alma, em gotas mansas,/Chora abismada no luto/Das minhas desesperanças.../E a noite vem, por demais/Erma, úmida e silente.../A chuva em pingos glaciais,/Cai melancolicamente./E enquanto anoitece, vou/Lendo, sossegado e só,/As cartas que meu avô/Escrevia a minha avó.”
 

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Em Amnésia

Num país onde tudo é faz de conta, o passado pode ser o que a gente escolher

De Luís Fernando Veríssimo

Existem a Polinésia, a Indonésia e, pouca gente sabe, a Amnésia, um pequeno arquipélago no Pacífico cuja principal indústria é a fitinha para amarrar no dedo e lembrar o que não se quer esquecer, que os amnesianos costumam usar nos 10 dedos da mão, inutilmente, pois nunca se lembram por que estão usando. Quem acha que o Brasil é o país mais sem memória do mundo não conhece a Amnésia, que inclusive se classificou para as finais da última Copa do Mundo mas esqueceu de ir, ao contrário do Brasil, que foi mas esqueceu o futebol.

A profissão mais valorizada na Amnésia é a de historiador-romancista. Como ninguém se lembra de nada por mais de 15 minutos, os historiadores inventaram uma história grandiosa para o país que inclui até uma guerra contra os Estados Unidos, que ganharam, vários reis malucos e ditadores divertidos e heróis nacionais como o inventor do spray nasal e um amante da Rita Hayworth, além de muitos recordistas olímpicos e cinco vitórias na Copa do Mundo. A capital de Amnésia, cujo nome ninguém se lembra, tem dezenas de estátuas e monumentos homenageando atletas, generais, cientistas e filósofos que nunca existiram mas estão nos livros de história. Segundo os historiadores, Amnésia já construiu sua bomba atômica, só esqueceu onde a botou.

Amnésia também é conhecida como exportadora de garçons. Quase todos os imigrantes de Amnésia que você encontra no mundo são garçons. É fácil reconhecê-los porque são os que esquecem o seu pedido. Em Amnésia isto não era um problema porque quem pedia sempre esquecia o que tinha pedido e aceitava o que o garçom trouxesse, mas em outros países garçons amnesianos têm ouvido alguns desaforos. Que logo esquecem.

Em Amnésia não há adultério. Ou há, mas os traídos esquecem a traição com a mesma rapidez com que os adúlteros esquecem seu juramento de jamais repeti-la, e volta a paz. Uma velha tradição do país - segundo os historiadores - é o duelo pela honra. Quando os desafetos se encontram para resolver tudo com espada ou pistola ninguém se lembra mais da causa do duelo, e apesar da tradição nenhum duelo jamais foi realizado em Amnésia. Pelo menos que alguém se lembre.

Os políticos em Amnésia são todos corruptos. Os escândalos se repetem mas as comissões parlamentares reunidas para investigá-los começam, invariavelmente, com seu presidente perguntando "Alguém se lembra por que estamos reunidos aqui?". Como ninguém se lembra as comissões são desfeitas, até o escândalo seguinte, quando ocorre a mesma coisa. Já houve a sugestão de se formar as comissões antes dos escândalos, que são previsíveis, pois acontecem com a mesma regularidade com que são esquecidos. A sugestão foi aceita e logo esquecida. Há pouca renovação entre dirigentes e parlamentares amnesianos porque o público esquece o que eles fizeram e os reelege. Políticos que estão no poder há anos fazem campanha com o slogan "Finalmente uma cara nova" em todas as eleições e levam o voto do eleitor insatisfeito mesmo que não lembre bem com o quê.

Leis são promulgadas, esquecidas, nunca exercidas e muitas vezes promulgadas de novo - e esquecidas de novo. Em Amnésia os computadores têm memória, mas ninguém se lembra pra que serve. É bom viver no pequeno arquipélago de Amnésia, onde ninguém cobra dívidas, guarda rancor ou tem o que contar ao psicanalista, a não ser que invente.

Os historiadores-romancistas providenciam as lembranças que ninguém tem. Se Amnésia se classificou para as finais da Copa - pelo menos tem quase certeza que se classificou, faz tanto tempo - e esqueceu de ir, por que não botar na história que foi e ganhou? Num país sem memória onde tudo é faz de conta, o passado pode ser o que a gente escolher.


Contribuição de Ana Paula Silva
(Reproduzido a partir do jornal Zero Hora, dia 29/7/06)


Para começar o blog sobre fatos que marcaram a vida de alguns personagens, as autoras sugerem a leitura do texto acima!

Aproveite!