Por Mariana Monzani
Miroslav Piroutek, que saiu da Tchecoslováquia fugindo da 2ª Guerra Mundial, tcheco de sotaque forte e marcante, voz grossa, andar com dificuldade e um cigarro sempre à mão, faleceu em 1989, de insuficiência respiratória. Isso aconteceu quando Melissa Piroutek tinha apenas 3 anos e ainda não possuía muitas lembranças de seu avô, mas o pouco que lembra, a fazem sentir muita falta dele.
Ela não se lembra do dia exato em que seu avô veio a falecer, mas se lembra de ir até o velório, e assistir ao enterro, mesmo sem entender o que estava acontecendo ali, incomodada e com medo, vendo seu tio chorar sem parar – curioso para ela, uma vez que essa cena nunca tinha sido presenciada. Sabia que estava lá pelo seu avô, mas não sabia o motivo. Não sabia que ele não voltaria mais.
Melissa não sentia tristeza, ela sabia que o avô havia morrido, mas não sabia o que isso significava. Esperava o carro com sua mãe, enquanto seu pai foi buscá-lo no estacionamento, só estava com frio e cansada por ter permanecido em pé tantas horas, e o que queria era entrar no carro logo e ir para casa.
Quando Melissa era pequena, seus pais trabalhavam fora e a deixavam na casa de seus avós, seu Miroslav e Dona Nair. O avô estava sempre lá, mas a maior parte do tempo permanecia no quarto, porque já estava bastante doente. Na semana seguinte, a rotina não foi diferente e Melissa foi todos os dias para a casa da avó, mas Seu Miroslav não estava mais lá, nem naquele dia e nem nos outros que viriam.
Melissa, emocionada, conta que ainda não havia percebido a ausência do avô. Aliás, havia percebido, não tinha tomado consciência que a morte dele significaria ele não estar mais presente e que ela não o veria mais. Ao descobrir isso, a dor foi muito intensa para uma menina tão novinha. Chegando a essa conclusão, sua mãe, D. Vera, não se omitiu em responder as questões da filha, questionada muitas vezes sobre o “desaparecimento” do avô, para onde ele poderia ter ido, e sempre respondia que agora, onde ele estava, se sentia melhor, pois não fumava mais, não andava mais com tanta dificuldade, e não estava doente. E, dessa forma, com a mãe respondendo, pacientemente, as questões que intrigavam a Melissa, ela passou a aceitar melhor a ausência dele.
Esse foi um dos fatos que mais marcaram a vida da Melissa. Hoje, com 24 anos, cineasta, conta que esse foi o primeiro contato que teve com perdas de qualquer tipo e define a perda do avô como algo que “até então nunca havia passado pela minha cabeça que uma pessoa que eu amava um dia pudesse deixar de estar lá ao meu alcance.”
A saudades e as lembranças só aumentam quando seu pai escuta Against the Wind, de Bob Seger. Segue o vídeo:


