segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Diário de uma paixão

Por Mariana Monzani
 
Ela nasceu em 1927, no bairro do Bom Retiro. Ele nasceu em 1926, em Olímpia. 11 meses separavam os dois. Ela, filha de Luzia Lourenço e Miguel Pagano, italianos de Sasso de Castaldo, eram primos (a mãe de Miguel era irmã do pai de Luzia). Ele, filho de Sebastiana da Silva e Jordano Bruno Monzani, paulistas de Amparo, sem parentesco algum.
Entre idas e vindas do bonde, todo dia, uma troca de olhares entre D. Thereza e Seu Antônio. Ela, indo trabalhar na fábrica de louças Zapi, na Vila Prudente. Ele, esperando o bonde para ir para a Mooca, onde trabalhava na loja de calçados do Seu João.
Ela tinha 25 anos. Ele, 26. No dia 20 de maio de 1950, Seu Antônio talvez tenha criado coragem, e tenha resolvido avançar um pouco mais do que permanecer apenas com olhares, entre idas e vindas do bonde, na hora do almoço. Resolveu falar com a D. Thereza. Acompanhou-a até o portão de casa e lá permaneceram conversando. Na despedida, um pedido de namoro. Um fato bem marcante na vida de Dona Thereza.
O namorou durou 2 anos e meio. Suficiente para um pedido de casamento, e o casamento em 24 de janeiro de 1953. Todas as datas ditas com muita lucidez e rapidez pela Dona Thereza. Chamo-a assim por respeito e carinho, como neta que sou. Porque a vejo, como toda vez que conta alguma história sobre meu avô, os seus olhos brilharem, vejo o carinho e o amor que existia e ainda existe.
Moravam na Rua da Mooca, 3779, em cima da loja de sapatos do Seu João. 30 de dezembro de 1953 nasceu Celso, o primeiro filho do casal. Dois anos depois, em 1955, se mudam para a Rua da Mooca, 2402, em cima da loja do Seu Quital. Em 8 de setembro de 1955 nasceu César, o segundo filho do casal.
Depois de 7 anos, em 1962, mudaram para o número 2396, na Rua da Mooca, numa loja de roupa de noivas e de crianças, em que a Dona Thereza trabalhava como vendedora.
Em 1967 mudaram para o Parque São Lucas, numa casa de dois cômodos. Celso com 14 anos, e César com 12. Seu Antônio foi trabalhar numa loja de calçados, as Lojas Eduardo, na Brigadeiro Luiz Antônio.
Seguiram a vida assim. A Dona Thereza até hoje conta como tinha medo de andar de carro - um fusquinha azul pavão e, depois, uma Brasília vermelha - com Seu Antônio, que era um pouco barbeiro, não enxergava e não dirigia muito bem. A cada nova história, uma nova risada, porque sempre tem um novo detalhe. Acho que é por isso que até hoje carrega o trauma da direção, nunca senta no banco da frente do carro, e fica aflita com qualquer um que dirija o veículo.
Eles viram a família crescer aos poucos. Veio a primeira neta, a Fernanda, em 1978, a Renata em 1979, o Luiz e o Ronaldo em 1980, a Roberta em 1981, a Carolina em 1985 e a Mariana 1989. Todos os domingos estavam todos juntos na casa de Seu Antônio e de Dona Thereza, o que rendia uma bronca na Dona Thereza toda segunda-feira, por conta da bagunça dos netos no dia anterior. Embora uma boa pessoa, Seu Antônio tinha um gênio bem difícil. Passaram uma vida de 40 anos juntos, até Seu Antônio falecer. Faleceu dia 12 de novembro de 1992, de um infarto. Tinha 66 anos.
Dona Thereza sempre teve o apoio da grande família que construiu. Desde 1983, o irmão mais novo morava com eles. E ela não ficou sozinha. Os netos foram crescendo, constituindo família. Hoje é mãe de 2 filhos, avó de 7 netos e bisavó de 7 bisnetos. Tem 84 anos e muitas boas histórias para contar... Tanto é que não queria contar apenas sobre o amor da sua vida e de seu casamento. Vale uma segunda, terceira... uma quarta história! No final, cantou uma música italiana, que não lembra o nome, mas que sente saudades...
Escrevendo esse relato me veio à lembrança um poema de Manuel Bandeira, “Cartas de meu Avô”. Segue um trecho, mas recomendo a leitura completa:
“(...)O meu semblante está enxuto/Mas a alma, em gotas mansas,/Chora abismada no luto/Das minhas desesperanças.../E a noite vem, por demais/Erma, úmida e silente.../A chuva em pingos glaciais,/Cai melancolicamente./E enquanto anoitece, vou/Lendo, sossegado e só,/As cartas que meu avô/Escrevia a minha avó.”
 

2 comentários:

  1. Dificil dizer se o texto está bom ou ruim fazendo parte da história.

    Somente vou dizer que fiquei EMOCIONADO !!!!!!

    Celso Monzani

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  2. Mariana, sou amigo do seu pai e quero te dar os parabéns pela forma tão carinhosa e bonita de contar a história da sua família, faz nos lembrar e sentir saudades da nossa família e automaticamente nos transporta para esta época tão gostosa de nossas vidas. Parabéns pelo post e ficarei no aguardo de novas histórias.

    Rodrigo Corazza

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