segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Diários de Motocicleta

Por Mariana Monzani

“Meu avô, era mecânico na República Tcheca e veio ao Brasil na década de 40, fugindo da guerra e da invasão russa”, conta Jimmy Piroutek. E eu já sabia que por essa frase inicial, as lembranças que ele me contaria seriam ditas com muito carinho por uma pessoa que já se foi faz tempo.

O avô de Jimmy, Sr. Miroslav Piroutek, morava no Mato Grosso e, uma vez, na década de 60, um pequeno avião caiu na fazenda onde ele morava. Depois de algum tempo, ele acabou pegando algumas peças daquele avião e montou uma moto super improvisada, com apenas duas marchas e um pequeno motor de dois tempos. Era uma moto no estilo alemão, que tinha uma cadeira ao lado para um segundo passageiro.

Jimmy e o irmão tinham 7 e 10 anos, foram passar as férias de julho do ano de 1971, como faziam quase todos os anos, na fazenda do avô. Eles andavam na moto todos os dias, incansavelmente, o dia inteiro, e o avô acabou ficando bastante irritado com isso. Para impedir que as crianças continuassem brincando com a moto, o avô usou de um artifício para impedir o fluxo da gasolina, e, dessa forma, não conseguiriam ligá-la.

Na manhã seguinte à “armadilha”, Jimmy e o irmão correram para pegar a moto, e, obviamente, ela não funcionou. Ficaram olhando para a moto durante uma hora, mais ou menos, e pensando o que poderia ter acontecido, e tentando achar um jeito de resolver aquela situação, porque não poderiam falar com o avô, já que, por um motivo óbvio, estava muito bravo com os dois.

Eles não desistiram, e pela insistência, descobriram que o avô havia soltado um caninho de plástico, pequeno, por onde passava a gasolina. Prenderam o cano imediatamente, e saíram com a moto, escondidos. Andaram com a moto o dia inteiro, sumiram pela fazenda. A hora de voltar seria a mais perigosa, o avô saberia... Dito e feito, o avô estava na porta, com as mãos na cintura, batendo o pé no chão.

Quando viu os dois pequenos chegado com a motoca, todos sujos, cheios de lama, até pensou em dar uma bronca neles. Mas Jimmy conta que o avô era uma pessoa de tão bom coração e tão amoroso, que olhou para os dois meninos, sujos desde os pés até a cabeça, virou as costas, saiu andando e fez aquele gesto com o braço do tipo “ah, deixa pra lá, vai...”.

Durante todo o resto das férias, os dois acabaram diminuindo o período que passavam brincando com a motoca do avô, mas foram dias de muita diversão e que deixaram muitas boas lembranças, estas que são lembradas com tanto carinho por Jimmy.

Jimmy fala sobre uma música de Raul Seixas - Gita, de 1974 - que fazia lembrar muito seu avô. Segue o vídeo:

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Aquele beijo

por Beatriz Backes

Aos 16 anos, todos os seus amigos já tinham beijado alguém. Ele estava esperando a pessoa certa. “Não que eu quisesse casar com a primeira pessoa que beijasse, mas não queria desperdiçar esse momento especial, do qual eu me lembraria o resto da vida, com uma pessoa qualquer”. Para Felipe, tinha que ser especial.

Em janeiro de 2008, ele foi passar as ferias da escola em Três Corações, onde alguns de seus parentes moram. A terra do Pelé, como ele mesmo diz. Hoje, a cidade lhe traz recordações de sua infância e seu crescimento. E ele guarda uma grande lista de amigos de lá, talvez maior do que a de amigos de sua própria cidade, São Paulo.

Como a cidade é pequena, a diversão de Felipe e de “um bando de adolescente”, como ele mesmo coloca, que ainda dependem da permissão dos pais era ficar em casa, assistindo filmes, brincando com jogos de tabuleiro e videogames, tocando violão, cantando e ressuscitando brincadeiras "antigas".

E foi em uma dessas brincadeiras na casa dos amigos que ele viu as coisas mudarem de figura. “Eu nunca tinha ficado com ninguém, nem meninos nem meninas, mas já sabia que os meninos me atraiam muito mais. Era como se eu só estivesse esperando para ter a confirmação”.

Dentre seus amigos, Marcelo se destacava. Pouco eles tinham conversado, mas a impressão que ele passara em Felipe já fora o suficiente para que este o considerasse uma boa pessoa e extremamente bonito. E essa influência era forte o bastante para que Felipe se sentisse envergonhado em se aproximar e conversar com ele – algo diferente de seu feitio normal.

Em uma de suas tardes de férias, ele se reuniu aos amigos na casa de um deles para uma nova sessão de brincadeiras. Ao escurecer, a sugestão foi a clássica “Gato Mia”. A diferença deste dia para os demais era a proximidade entre Felipe e Marcelo naquele dia. “Apesar do frio na barriga que eu sempre sentia quando estava perto dele, eu conseguia conversar com ele sem tremer”.

Durante uma das rodadas, Felipe ficou sem esconderijo. Marcelo e uma outra amiga estavam agachados atrás de um armário e ele decidiu que iria para lá também. O espaço que já era pequeno para duas pessoas, se tornou minúsculo para três.

Felipe ficou frente a frente com Marcelo. O pegador esbarrou em alguma coisa, fez barulho e assustou Felipe, que se desequilibrou. Marcelo o segurou e gesticulou pedindo silêncio. Nada disso importou para o menino que quase estragara a brincadeira com seu jeito assustado. O contado da pele de Marcelo com a sua lhe causou um arrepio. Ele sentiu uma corrente elétrica percorrer seu corpo em frações de segundos.

Em uma outra rodada da brincadeira, Felipe e Marcelo acabaram se escondendo no fundo de corredor. Enquanto o pegador se movia, os dois se aproximavam mais e mais. Até que o primeiro não tinha mais para onde ir e eles se viram frente a frente mais uma vez, perto o suficiente para que um sentisse a respiração do outro.

Quem deu o primeiro passo, ele não sabe dizer. “Foi algo tão natural!... Eu estava tão envolvido no momento que esqueci do mundo – e inclusive do pegador vendado que estava perto de nós”.

A chamada para a realidade veio com o esbarrão que a terceira pessoa na cena deu em um interruptor e que acendeu a luz do local.

Não houve choque ou arrependimento ter acontecido com um garoto. “Foi tão simples que eu só estava pensando em como eu tive sorte por ter dado meu primeiro beijo em alguém especial”.


Felipe ainda diz que teve crises de identidade na vida, “mas a partir daquele momento eu tive muita certeza de quem era e do que queria. Eu sabia que tinha mais para "experimentar", mas não fiquei preocupado com isso e deixei as coisas acontecerem”.




Qual a relação do vídeo acima? Essa é uma de suas peças de teatro favoritas e foi um dos DVDs selecionados para a viagem de férias por Felipe. Nenhum de seus amigos de Três Corações tinha assistindo ainda. Ela reaviva o momento por resumir o que foi o mês de janeiro de 2008 para Felipe: muitas risadas, diversão boba de adolescentes e bem estar. E também por ele ter assistido a ela com Marcelo, de mãos dadas por baixo de um edredom.




segunda-feira, 24 de outubro de 2011

A Missão

Por Michelle Borges


O dia estava quente e ensolarado, e a música tipicamente boliviana soava alto. Os vendedores atendiam os seus clientes da forma mais atenciosa possível. O cheiro de comida exalava. Era hora do almoço.

Em uma barraca de DVDs pirata, logo ao lado, pendurado no suporte, algo diferente chamava a atenção dos transeuntes: um tipo de quadro metálico com figuras cujos traços indicam a arte andina. Logo abaixo, pendurados, se encontravam alguns amuletos da sorte.

- Qual é a sorte?

- Como? – perguntei, assustada, ao homem que surgiu abruptamente na minha frente.

- Qual é a sorte? – perguntou novamente. No olhar uma expressão que indicava que seu questionamento era óbvio, assim como a sua resposta para tal.

Continuei parada, sem compreender absolutamente nada e com um ponto de exclamação imaginário desenhado na minha testa. Sem esperanças, o homem respondeu:

- Nenhuma. Você faz a sua sorte. Muita gente pensa que o amuleto traz sorte, mas na verdade, nós levamos a sorte à ele.

E foi assim que conheci Inti Roman. Na feira da Kantuta, situada no Pari, próximo à estação de Metrô Armênia, na central de São Paulo. O local é uma espécie de ponto de encontro de bolivianos que vivem na capital paulista, onde podem entrar em contato novamente com a cultura de sua terra natal e encontrar pessoas, que como eles, vieram ao Brasil para tentar uma sorte melhor na vida.



Inti Roman é um índio da Nação Ketchua e quando perguntado sobre o seu país ou cidade de origem, sua resposta foi tão direta que a minha primeira reação depois de ouvir foi levar um susto, e depois sorrir. Para mim, aquele homem só podia estar de brincadeira. Eis a recriação do diálogo:

- De onde o senhor vem?

- Do mesmo lugar que você: do Planeta Terra.

Depois do choque, entendi que a minha compreensão do mundo e a de Inti Roman são completamente diferentes. Ele não se denomina boliviano, mas sim um cidadão do mundo, pois compreende que o planeta é de todos, e que essa separação por territórios e países só serve para criar as diferenças, o preconceito e a intolerância.

Natural de Cochabamba, situada na região central da Bolívia, Inti Roman era um artista. Fazia música e também os seus quadros em metal para, assim, difundir a arte milenar andina. Tudo isso mudou há 15 anos, quando recebeu o seu chamado espiritual para o xamanismo.

Após “tomar uma planta”, Inti Roman teve uma visão, que lhe dizia o que deveria fazer e qual era o seu destino. Ele deveria vir a São Paulo, onde iria realizar palestras sobre o xamanismo.

Por isso ele vai à feira da Kantuta todos os domingos. Não só para divulgar a sua arte, mas também para fazer contatos. O xamã conta que antes de receber o seu chamado, ele já conhecia São Paulo, pois costumava vir à cidade para comprar os metais para a sua arte. Ele passava correndo pelas ruas, pois sentia uma energia negativa no ar.

Ele não tem critérios para escolher os lugares onde realizará suas palestras ou as pessoas a quem deverá falar. Ele compreende que é importante não ter preconceitos tanto de quem fala, como de quem ouve. Ele também menciona que a cultura andina perdura há muitos milênios e que desde o seu surgimento, não sofreu alterações, sendo incompreendida e encarada muitas vezes de forma ignorante pelo mundo ocidental. Por isso, sempre distribui os seus cartões de contato, para que as pessoas possam perceber o xamanismo modifica a vida e a visão de mundo das pessoas.

Grande conhecedor também de astrologia, o boliviano identifica o chamado signo astrológico de um pessoa e consegue definir sua personalidade através dele e do comportamento. “Eu escolhi o signo da minha filha. Queria que ela fosse sagitariana”, comenta ele.

Inti Roman divide a sua vida em dois momentos: antes e depois do chamado que recebeu. A partir dele, mudou de cidade, de pais, de idioma e profissão. Sua nova missão de vida é transmitir uma nova percepção do mundo, a partir do conhecimento de seus ancestrais e de plantas expansoras da consciência.


quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Rede de Corrupção

Por Mariana Monzani

Desconfiança. Essa é a palavra que define a relação de Guilherme Valquer, 20 anos, com seu pai, Vilmar. Tudo isso começou há três anos quando Vilmar comprou um computador, e o instalou no porão da casa, pertinho da lavanderia - lá foi onde ele começou a passar grande parte dos dias, trabalhando e fazendo projetos no AutoCAD.

Guilherme conta que sua família era muito unida há alguns anos. Passavam os finais de semana juntos, as refeições eram sagradas, em que todos deveriam estar sentados à mesa, e conversavam sobre diversos assuntos nestes momentos de união. Diz que os pais sempre se mostraram como o típico casal do século passado: se casaram, tiveram filhos e nunca mais se separaram. “Nunca os vi discutindo e eles tinham uma relação aparentemente sadia e de respeito, pareciam ter saído dos contos de fada, até que um deles comeu o fruto proibido”, e é assim que ele começa a contar um dos fatos que mais marcaram sua vida.

Quando Guilherme precisava do pai, era só descer as escadas até o porão e entrar na lavanderia, e ele estaria lá, no computador. Mas era ele entrar na sala, e, rapidamente, seu pai minimizava todas as janelas abertas no monitor. Ocorria o mesmo quando a mãe de Guilherme, Dona Nalva, aparecia... Ela não era inocente. Não era ingênua, só não entendia muito de tecnologia. Veio, então, a pergunta que Guilherme talvez não esperava “Filho, dá pra ler tudo o que a pessoa escreve em uma sala de bate-papo, por exemplo?”. Ele respondeu que de alguma maneira, sim. E, sem entender o ocorrido, questionou a mãe sobre os motivos daquela pergunta. Dona Nalva disse que Vilmar passava muito tempo na frente do computador e achava que ele deveria estar viciado nessas tecnologias.

Não precisou muito mais que isso para que Guilherme pudesse entender o que estava acontecendo e fazer as ligações entre todas as vezes que viu o pai, nervoso, camuflar as atividades no computador e a conversa que acabara de ter com a mãe. Decidiu tomar uma atitude, mesmo que isso significasse descobrir a verdade e magoar sua mãe.


A armadilha
Ele esperou a oportunidade de não ter ninguém em casa e colocou como missão desmascarar o pai, caso fosse realmente necessário. E aí foi... Ficou sozinho um dia, e não teve dúvidas: ligou o computador do pai, abriu o histórico e lá estavam as conversas das salas de papo. Ele não queria e não podia acreditar, no primeiro momento, mas continuou buscando por mais material que pudesse incriminar o pai, o tal material suspeito. Entrou numa sala qualquer de bate papo, mas não obteve sucesso, pois o preenchimento automático do navegador estava desligado, e o computador não salvava nem endereço de e-mail e nem a senha para conexão. Pensou numa saída e em uma segunda armadilha: ativou o preenchimento automático das páginas da internet, assim, quando Vilmar usasse a página, estaria salvo ali.

Dava-se por satisfeito, quase desligando o computador, quando viu a janela do MSN aberta, com a senha no automático. Não teve escolha... Entrou e ativou o registro de históricos das conversas. A armadilha estava pronta. Não era difícil de cair nela. Era só uma questão de tempo para Vilmar cair na armadilha e Guilherme descobrir o que Vilmar fazia, e fazia questão de manter escondido. Boa coisa não era. Guilherme já desconfiava. A relação já estava abalada desde então...


Os fatos
Guilherme foi paciente, precisava recolher muitas provas, e que essas fossem concretas. Voltou ao “escritório” do pai duas semanas após ter-lhe colocado uma armadilha. E “voilà”! Tudo estava à sua vista, tudo aquilo que Guilherme não queria que se confirmasse. Tudo o que foi escrito nas salas de bate-papo neste intervalo de duas semanas, realmente, era bem suspeito. Nas conversas, Vilmar perguntava para mulheres suas idades, local em que moravam, o que faziam, pedia seus contatos, e passava o endereço do MSN.

A segunda etapa era revirar os históricos do Messenger. Bastou abrir o primeiro histórico para que confirmasse algumas de suas suspeitas: ler que seu pai marcava encontros com outras mulheres e aquilo foi o bastante para Guilherme esquecer que seu pai tivesse um pouco, que fosse, de dignidade.

Guilherme só sabia de uma coisa, que a mãe não merecia passar por aquilo. Não podia deixar que nada magoasse sua mãe e resolveu agir. Resolveu colocar Vilmar contra a parede, deu um ultimato e foi bem direto: “Eu sei o que você anda procurando na internet”. Ele contou que o pai arregalou os olhos, assustado e permaneceu calado. “Por que?”, questionou Guilherme. Vilmar não negou. Na verdade, não teve nenhuma reação. Os fatos falavam por si próprios. Gaguejou, mas acabou confessando.
Foi dado um ultimato a Vilmar. Uma semana era seu prazo para que confessasse tudo para Dona Nalva. Caso contrário, Guilherme contaria.


A relação abalada
Após o fim do tempo que Vilmar tinha, contou para Guilherme que havia conversado com Dona Nalva. Ele já sabia, pois chegou a ouvir por detrás da porta trechos da conversa entre os dois, mesmo que fosse constrangedor. O pai contou a Dona Nalva que havia fraquejado. Dona Nalva só foi capaz de perguntar se era aquilo mesmo que Vilmar queria.

Dona Nalva foi capaz de perdoá-lo. Tudo, aparentemente, voltou ao normal entre a família. Mas entre Guilherme e Vilmar, não. Quase nada restou. A relação ficou abalada. Só sobrou a educação do “bom dia” e conversar sobre assuntos básicos, como a mensalidade da Universidade. Guilherme não se refere ao pai como pai, o chama pelo nome. Não confia mais no pai, não acredita no que ele diz. Vilmar, por muitas vezes, tenta estabelecer uma relação de pai e filho com Guilherme, mas permanece frustrado, pois, para Guilherme, confiança é uma só. “Sorte a dele que não puxei isto da minha mãe”, encerra Guilherme.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

À procura da felicidade

por Beatriz Backes


Daniela sempre teve como sonho ser famosa. Mas, para ela, isso era impossível na sua cidade Natal, em Cachoeiro do Itapemirim, no Espírito Santo. “A cidade era muito pequena”.

Outro sonho de menina seu era conhecer a Xuxa. Ela sabia a letra de todas as músicas, todas as coreografias, tinha um microfone de brinquedo igual ao da apresentadora. E, aos 16 anos, Daniela teve a oportunidade de concretizar dois sonhos de uma vez.



O ano era 2001 e a Rainha dos Baixinhos iria iniciar uma nova fase na TV Globo e precisava de um novo elenco para compor as conhecidas Paquitas. Sem pestanejar, Daniela passou a mão em suas coisas, montou uma mala e fugiu de casa rumo a São Paulo, onde a seleção seria feita.

Durante a viagem de ônibus, a menina ligou para uma prima que morava na capital e pediu para passar uns dias na casa dela. Também ligou para os pais e contou o que estava planejando.

A mãe, dona Tereza, desesperada, ordenou que a menina descesse na primeira parada do ônibus e voltasse para casa. Mas, depois das lágrimas da filha e a explicação de todo o plano, o seu coração de mãe amoleceu e desejou toda a sorte do mundo para Daniela.

Daniela chegou em São Paulo e morou com a prima por, aproximadamente, duas semanas. Não conseguiu dividir o apartamento com ela. “Nossos santos não bateram”.

O teste para Paquita também não funcionou. Mas ela não desistiu de ser famosa.

E durante todas as tentativas, Daniela descobriu o seu amor pela dança e pela música: sua verdadeira vocação.

Depois de sair da casa da prima, Daniela morou em um pensionato de freiras que não compreendiam como uma menina de 16 anos tinha fugido de casa para ser Paquita da Xuxa e estava sozinha em uma cidade como São Paulo.

A próxima casa foi uma quitinete, em um prédio simples na periferia da região oeste. “Tinha todo o tipo de gente morando lá: famílias inteiras, idosos, um grupo de hippies, um menino que usava e vendia drogas, um travesti...”

Hoje, ela é atriz de musicais e tem o seu próprio apartamento na Vila Madalena. Daniela conta que não teria conseguido o que tem hoje se não tivesse cometido a loucura de fugir de casa e que não teria amadurecido tanto em tão pouco tempo.




quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Rindo à toa

Por Michelle Borges

“O fato mais marcante da minha vida aconteceu há dezesseis anos”. É o que explica Sandra Santoro, enquanto seu rosto exibe um grande sorriso. Sandra tem 46 anos e a sua profissão é dona-de-casa.

Há dezesseis anos, ou seja, em 1995, a vida de Sandra era bastante diferente de como é atualmente. “Era mais fácil. Tanto financeiramente, quanto emocionalmente. Muito mais fácil”.

Sandra pôde realizar um sonho. Sonho este que não consegue nem se lembrar de quando surgiu. A mudança implicada por essa realização foi tanta que hoje Sandra tem dificuldade em recordar como era a sua vida antes de 1995.

“Não me lembro como era. Eu só chegava em casa à noite. Minha casa não tinha vida durante o dia. Eu trabalhava”. Quando não estava trabalhando, saía com o marido ou fazia jantares para os amigos. Sandra não tinha preocupações.

Tudo isso mudou com a chegada de Guilherme. “Eu sempre quis ser mãe, sempre sonhei. Quando a enfermeira falou ‘nasceu e o menino é perfeito’ foi uma satisfação total”. Além do Guilherme, Sandra é mãe da Giulia, de 13 anos.



Com o nascimento de seus filhos, Sandra compreendeu que agora não é mais apenas ela, pois tem mais dois com quem dividir a atenção. “Escola, educação, saúde. Acabo me deixando mais de lado, pois tenho outras coisas com as quais me preocupar”.

Ao conhecer a história de Sandra, me veio em mente a seguinte citação, do místico indiano Bhagwan Shree Rajneesh:

No momento em que uma criança nasce, a mãe também nasce. Ela nunca existiu antes. A mulher existia, mas a mãe, nunca. Uma mãe é algo absolutamente novo.

Quando perguntada se estava satisfeita com a realização deste sonho, Sandra foi bastante clara: “Sim. Não trocaria isso por nada”.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Começar de novo

Por Mariana Monzani

“Eu diria que a decisão mais importante que tomei na minha vida foi a de me mudar de Ubatuba para São Paulo e começar a faculdade. As pessoas à minha volta nunca tiveram muitas aspirações, então, se eu escolhesse ficar por lá e morrer no mesmo hospital onde nasci, não havia quem realmente fosse se preocupar.”. Essa parte da vida de Guilherme se chama Mudança.

Tudo começou quando o Ensino Médio acabou – porque é sempre assim: uma etapa tem que acabar para dar espaço para outra chegar. E não foi diferente com ele.
Carmona, como é conhecido pelo amigos, tem 21 anos, nasceu na cidade de Ubatuba, estudante de Jornalismo e amante de bons livros. Graças à influência de algumas pessoas, sobretudo da avó paterna, Dona Ilsa, que viajou muito e leu muitos livros, ele desenvolveu o hábito da leitura, desde muito cedo, e, por isso, a curiosidade sobre tudo é algo que sempre o acompanhou.

Quando Guilherme se formou no ensino médio, junto com todos os amigos que conhecia desde criança, percebeu que tinha muita necessidade de largar velhos hábitos e costumes, mudar e ser diferente de todos. Queria conhecer um pouco daquilo que as pessoas chamavam de Mundo, e ele sabia que se ficasse em Ubatuba, nunca saberia o que era isso.

Mas, para tudo ser como Guilherme imaginou, deveriam haver mudanças drásticas em sua vida. Uma delas foi largar os pais e ir passar 6 meses em São Paulo. Adquirir experiência não foi fácil e nem foi da noite pro dia. Voltou para ficar em Ubatuba mais 6 meses. E depois, por necessidade de sair de casa, passou na faculdade e voltou para São Paulo.

Nesse período na cidade, mudou de casa três vezes. Ficou o primeiro semestre da faculdade em um apartamento. A casa número dois durou todo o segundo e o terceiro semestres, e a número três mais um ano. Entre idas e vindas pela cidade, passando por diversas casas, passou, também, por diversas mudanças consigo mesmo. Essas mudanças só fizeram Guilherme amadurecer... Conseguiu persistir na faculdade, ficar longe da família.

Mas isso não quer dizer que morar em São Paulo seja o objetivo final dele. Faculdade é uma etapa... E essas, são etapas necessárias. Foram necessárias para ele ganhar mais autonomia na vida, aprender a não depender tanto dos outros. Criou o hábiot de estudar, não só o jornalismo, que é sua área na Universidade, mas outras áreas de interesse. Mas com todas essas mudanças na vida, aprendeu a levar tudo com mais leveza, sem pressa, sem se cobrar tanto... Logo, logo,estará formado, com o diploma de jornalista na mão, pronto para uma nova mudança, talvez uma nova viagem... E ele acha que será divertido!

Guilherme indica como uma trilha sonora de sua vida uma música de Bob Dylan... Aproveitem!

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Embalos de sábado à noite!

por Beatriz Backes


Às vésperas de completar 10 anos de existência, o "Brilhantina" marca presença todos os sábados nos rádios do paulistano. Não pode ser considerado um único fato marcante, mas uma sucessão deles: um a cada semana.

O programa de rádio surgiu em 2002, na rádio KISS FM, idealizado por Aldemar Altieri, com o intuito de resgatar sucessos

do rock 'n' roll das décadas de 1950 e 1960 e, inicialmente, apresentado por Felipe Bueno. Um ano depois, o hoje conhecido por Dinossauro da Noite assumiu a ancoragem e a seleção de trilhas.

Os cabelos grisalhos e as sombras sob os olhos mostram toda a experiência adquirida ao longo de tantos anos de vida e profissão. Fernando Barreto já acumula décadas de rádio brasileiro e é considerado pelos insones ouvintes da madrugada, o rei do horário. Desde a saída de Felipe Bueno da rádio KISS FM, ele assumiu a apresentação do "Brilhantina" e pôde, assim, exprimir toda a sua paixão pelo verdadeiro rock 'n' roll e dividir suas experiências revividas a cada música.




Mas foi o dia 12 de fevereiro de 2007 que foi o marco da reviravolta. Ele migrou de emissora e ajudou a transformar a recém-nascida rádio SulAmérica Trânsito no fenômeno radiofônico que ela se tornou. Junto com ele, lá se foi o Brilhantina.

Hoje, mais de que uma pausa na programação exclusiva do veículo, o “Brilhantina” é uma forma de fazer reviver e apresentar “melhor do início dos anos 50 e 60, com histórias, curiosidades e todos os estilos musicais que contribuíram para o surgimento do estilo para as novas gerações”.


Entre uma música e outra, Fernando apresenta curiosidade de seus compositores e sobre o período em que foi escrita, de maneira que o ouvinte possa imergir no ambiente. “ Porque, mais importante do que gostar ou não de uma música, é saber compreender o que ela representou na época”.

Outra curiosidade especialmente planejada e escolhida pelo dedicado apresentador são as temáticas de cada edição do programa. “Já fizemos especiais do dia dos pais, com músicas do Elvis, do dia dos bombeiros… Sempre com músicas que remetam o ouvinte ao tema do dia”.

Fernando também comenta sobre o carinho que os ouvintes adquiriram ao longo desses anos de “Brilhantina”: “Tenho ouvintes de todos os jeitos: desde uma senhora de 90 anos que, todo sábado a noite, liga o rádio antigo dela e dança com o neto pela sala ao som do bom rock ‘n’ roll, até aquele que ligou a rádio apenas para saber das condições do trânsito e escapar de um congestionamento de sábado. De um a outro extremo, não tem um que não mande mensagem para a rádio e comente algo sobre uma das músicas”.



segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Tal mãe, tal filha

Por Michelle Borges

Ana com Alessandra, na época, com 3 anos.
Acordar cedo, levar as filhas para a escola, esperar, levar para o treino, buscar depois da aula de inglês, fazer o almoço, ajudar nos trabalhos...

Essa é uma parte da rotina de Ana Luiza Nicolau. A dona-de-casa aposentada e “mãetorista” é o que podemos chamar de supermãe, pois está sempre prezando pelo bem-estar de suas duas filhas, buscando lhes oferecer as melhores condições de educação e ensino para que, assim, um dia possam se qualificar para encarar o mercado de trabalho e a vida.            

INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA
Ana Luiza nasceu na cidade de São Paulo em 1958, ano em que o Brasil venceu pela primeira vez a Copa do Mundo de Futebol. O presidente naquela época era Juscelino Kubitschek, e o país vivia um período de grande expansão econômica. Ana conta que viveu toda a sua vida na capital paulista, com a família (pais e dois irmãos mais velhos) e recorda a sua infância - vivida no bairro Vila Romana, na Lapa -, dizendo que esta foi muito boa e que soube aproveitar este período. “Eu tive realmente infância, porque eu tinha a liberdade para andar de bicicleta em São Paulo!”.

A juventude de Ana foi bastante tranquila, sem muita rebeldia. Sempre tinha amigos em casa, com os quais costumava sair e ir aos bailinhos daquela época - bastante diferentes dos que temos hoje em dia. “Não eram nesse mundo de bebida e de droga. Não existia isso. A música era melhor. Tudo era melhor”.

A DECISÃO ERRADA
Quando se formou no ensino médio, Ana ingressou na faculdade de psicologia e conta que não gostou do curso. “Eu entrei na faculdade numa aposta. Meus amigos escolheram o curso porque eles falavam que eu não ia entrar na faculdade. Eles escolheram o curso baseados no que era mais difícil, porque era a única faculdade que tinha à noite e eu trabalhava”. Este era o ano de 1978, e Ana era funcionária do banco “Nossa Caixa, Nosso Banco”.

Após a descoberta de que havia passado no vestibular, Ana se matriculou no curso e disse que se acomodou. “Eu não faria isso hoje de jeito nenhum. Não gostei, acho que a psicologia é um campo pequeno de trabalho, muitos problemas na sua cabeça, não é a minha área”, conta a mãe que preferiu não trabalhar na sua área de formação, mas que pode ajudar a filha a estudar para uma prova de Psicologia.

NOVOS HORIZONTES
Ana e o marido, José Wellington, em uma viagem que fizeram à Bariloche, em 2010.

Dois anos após entrar na faculdade, Ana conheceu José Wellington Gomes Nicolau. Ele também trabalhava no “Nossa Caixa, Nosso Banco”, mas em um setor diferente do de Ana. Naquele mesmo ano os dois começaram a namorar e em junho de 1990, se casaram. Hoje os dois são pais da Alessandra, de 20 anos, e da Ana Carolina, de 13.

MISSÃO QUASE CUMPRIDA E UM NOVO DESAFIO
No que diz respeito à criação das duas filhas, Ana fez o melhor que lhe foi possível, incentivando os estudos das duas e lhes permitindo escolher a carreira profissional que quiserem seguir. Para ela, o fato mais marcante da sua vida até então, foi quando a sua filha mais velha entrou na universidade, em 2009. Foi quando ela percebeu que já havia feito tudo o que estava ao seu alcance para a Alessandra e que de agora em diante, a jovem deverá enfrentar os seus desafios sozinha, mas sempre tendo a mãe ao seu lado. “A vida inteira você cuida dos filhos, dá educação, ensina conceitos, os dirige para aquilo que querem e chega uma hora em que eles têm que se virar”, explica.

Mesmo com uma filha praticamente pronta para encarar o mundo profissional, Ana diz que a sua missão ainda não está concluída e que a sua vida não mudou muito desde que Alessandra começou a frequentar a universidade. “Não mudou muito porque eu ainda tenho uma filha, a Ana Carolina”, diz. 

Ana e Alessandra, em 2010.

Quando perguntada se a sua experiência pessoal na universidade de alguma forma influenciou na escolha do curso que a Alessandra resolveu fazer, Ana responde que sim, mas de uma forma positiva. “A Alessandra pode escolher o curso que quis e a mesma coisa vai acontecer com a Ana Carolina. A gente vai orientando, e aí cabe a elas resolveram”.  Hoje, Ana não tem nenhum arrependimento e diz que se a sua filha quiser mudar de profissão, basta fazer uma segunda faculdade, pois ela tem tempo, disposição, idade, força de vontade e o apoio total de sua mãe.