Por Mariana Monzani
Desconfiança. Essa é a palavra que define a relação de Guilherme Valquer, 20 anos, com seu pai, Vilmar. Tudo isso começou há três anos quando Vilmar comprou um computador, e o instalou no porão da casa, pertinho da lavanderia - lá foi onde ele começou a passar grande parte dos dias, trabalhando e fazendo projetos no AutoCAD.Guilherme conta que sua família era muito unida há alguns anos. Passavam os finais de semana juntos, as refeições eram sagradas, em que todos deveriam estar sentados à mesa, e conversavam sobre diversos assuntos nestes momentos de união. Diz que os pais sempre se mostraram como o típico casal do século passado: se casaram, tiveram filhos e nunca mais se separaram. “Nunca os vi discutindo e eles tinham uma relação aparentemente sadia e de respeito, pareciam ter saído dos contos de fada, até que um deles comeu o fruto proibido”, e é assim que ele começa a contar um dos fatos que mais marcaram sua vida.
Quando Guilherme precisava do pai, era só descer as escadas até o porão e entrar na lavanderia, e ele estaria lá, no computador. Mas era ele entrar na sala, e, rapidamente, seu pai minimizava todas as janelas abertas no monitor. Ocorria o mesmo quando a mãe de Guilherme, Dona Nalva, aparecia... Ela não era inocente. Não era ingênua, só não entendia muito de tecnologia. Veio, então, a pergunta que Guilherme talvez não esperava “Filho, dá pra ler tudo o que a pessoa escreve em uma sala de bate-papo, por exemplo?”. Ele respondeu que de alguma maneira, sim. E, sem entender o ocorrido, questionou a mãe sobre os motivos daquela pergunta. Dona Nalva disse que Vilmar passava muito tempo na frente do computador e achava que ele deveria estar viciado nessas tecnologias.
Não precisou muito mais que isso para que Guilherme pudesse entender o que estava acontecendo e fazer as ligações entre todas as vezes que viu o pai, nervoso, camuflar as atividades no computador e a conversa que acabara de ter com a mãe. Decidiu tomar uma atitude, mesmo que isso significasse descobrir a verdade e magoar sua mãe.
A armadilha
Ele esperou a oportunidade de não ter ninguém em casa e colocou como missão desmascarar o pai, caso fosse realmente necessário. E aí foi... Ficou sozinho um dia, e não teve dúvidas: ligou o computador do pai, abriu o histórico e lá estavam as conversas das salas de papo. Ele não queria e não podia acreditar, no primeiro momento, mas continuou buscando por mais material que pudesse incriminar o pai, o tal material suspeito. Entrou numa sala qualquer de bate papo, mas não obteve sucesso, pois o preenchimento automático do navegador estava desligado, e o computador não salvava nem endereço de e-mail e nem a senha para conexão. Pensou numa saída e em uma segunda armadilha: ativou o preenchimento automático das páginas da internet, assim, quando Vilmar usasse a página, estaria salvo ali.
Dava-se por satisfeito, quase desligando o computador, quando viu a janela do MSN aberta, com a senha no automático. Não teve escolha... Entrou e ativou o registro de históricos das conversas. A armadilha estava pronta. Não era difícil de cair nela. Era só uma questão de tempo para Vilmar cair na armadilha e Guilherme descobrir o que Vilmar fazia, e fazia questão de manter escondido. Boa coisa não era. Guilherme já desconfiava. A relação já estava abalada desde então...
Os fatos
Guilherme foi paciente, precisava recolher muitas provas, e que essas fossem concretas. Voltou ao “escritório” do pai duas semanas após ter-lhe colocado uma armadilha. E “voilà”! Tudo estava à sua vista, tudo aquilo que Guilherme não queria que se confirmasse. Tudo o que foi escrito nas salas de bate-papo neste intervalo de duas semanas, realmente, era bem suspeito. Nas conversas, Vilmar perguntava para mulheres suas idades, local em que moravam, o que faziam, pedia seus contatos, e passava o endereço do MSN.
A segunda etapa era revirar os históricos do Messenger. Bastou abrir o primeiro histórico para que confirmasse algumas de suas suspeitas: ler que seu pai marcava encontros com outras mulheres e aquilo foi o bastante para Guilherme esquecer que seu pai tivesse um pouco, que fosse, de dignidade.
Guilherme só sabia de uma coisa, que a mãe não merecia passar por aquilo. Não podia deixar que nada magoasse sua mãe e resolveu agir. Resolveu colocar Vilmar contra a parede, deu um ultimato e foi bem direto: “Eu sei o que você anda procurando na internet”. Ele contou que o pai arregalou os olhos, assustado e permaneceu calado. “Por que?”, questionou Guilherme. Vilmar não negou. Na verdade, não teve nenhuma reação. Os fatos falavam por si próprios. Gaguejou, mas acabou confessando.
Foi dado um ultimato a Vilmar. Uma semana era seu prazo para que confessasse tudo para Dona Nalva. Caso contrário, Guilherme contaria.
A relação abalada
Após o fim do tempo que Vilmar tinha, contou para Guilherme que havia conversado com Dona Nalva. Ele já sabia, pois chegou a ouvir por detrás da porta trechos da conversa entre os dois, mesmo que fosse constrangedor. O pai contou a Dona Nalva que havia fraquejado. Dona Nalva só foi capaz de perguntar se era aquilo mesmo que Vilmar queria.
Dona Nalva foi capaz de perdoá-lo. Tudo, aparentemente, voltou ao normal entre a família. Mas entre Guilherme e Vilmar, não. Quase nada restou. A relação ficou abalada. Só sobrou a educação do “bom dia” e conversar sobre assuntos básicos, como a mensalidade da Universidade. Guilherme não se refere ao pai como pai, o chama pelo nome. Não confia mais no pai, não acredita no que ele diz. Vilmar, por muitas vezes, tenta estabelecer uma relação de pai e filho com Guilherme, mas permanece frustrado, pois, para Guilherme, confiança é uma só. “Sorte a dele que não puxei isto da minha mãe”, encerra Guilherme.
Mari, ficou muito bom! Adorei a entrevista. Quando precisar, sabe que é só chamar (:
ResponderExcluir