quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Rede de Corrupção

Por Mariana Monzani

Desconfiança. Essa é a palavra que define a relação de Guilherme Valquer, 20 anos, com seu pai, Vilmar. Tudo isso começou há três anos quando Vilmar comprou um computador, e o instalou no porão da casa, pertinho da lavanderia - lá foi onde ele começou a passar grande parte dos dias, trabalhando e fazendo projetos no AutoCAD.

Guilherme conta que sua família era muito unida há alguns anos. Passavam os finais de semana juntos, as refeições eram sagradas, em que todos deveriam estar sentados à mesa, e conversavam sobre diversos assuntos nestes momentos de união. Diz que os pais sempre se mostraram como o típico casal do século passado: se casaram, tiveram filhos e nunca mais se separaram. “Nunca os vi discutindo e eles tinham uma relação aparentemente sadia e de respeito, pareciam ter saído dos contos de fada, até que um deles comeu o fruto proibido”, e é assim que ele começa a contar um dos fatos que mais marcaram sua vida.

Quando Guilherme precisava do pai, era só descer as escadas até o porão e entrar na lavanderia, e ele estaria lá, no computador. Mas era ele entrar na sala, e, rapidamente, seu pai minimizava todas as janelas abertas no monitor. Ocorria o mesmo quando a mãe de Guilherme, Dona Nalva, aparecia... Ela não era inocente. Não era ingênua, só não entendia muito de tecnologia. Veio, então, a pergunta que Guilherme talvez não esperava “Filho, dá pra ler tudo o que a pessoa escreve em uma sala de bate-papo, por exemplo?”. Ele respondeu que de alguma maneira, sim. E, sem entender o ocorrido, questionou a mãe sobre os motivos daquela pergunta. Dona Nalva disse que Vilmar passava muito tempo na frente do computador e achava que ele deveria estar viciado nessas tecnologias.

Não precisou muito mais que isso para que Guilherme pudesse entender o que estava acontecendo e fazer as ligações entre todas as vezes que viu o pai, nervoso, camuflar as atividades no computador e a conversa que acabara de ter com a mãe. Decidiu tomar uma atitude, mesmo que isso significasse descobrir a verdade e magoar sua mãe.


A armadilha
Ele esperou a oportunidade de não ter ninguém em casa e colocou como missão desmascarar o pai, caso fosse realmente necessário. E aí foi... Ficou sozinho um dia, e não teve dúvidas: ligou o computador do pai, abriu o histórico e lá estavam as conversas das salas de papo. Ele não queria e não podia acreditar, no primeiro momento, mas continuou buscando por mais material que pudesse incriminar o pai, o tal material suspeito. Entrou numa sala qualquer de bate papo, mas não obteve sucesso, pois o preenchimento automático do navegador estava desligado, e o computador não salvava nem endereço de e-mail e nem a senha para conexão. Pensou numa saída e em uma segunda armadilha: ativou o preenchimento automático das páginas da internet, assim, quando Vilmar usasse a página, estaria salvo ali.

Dava-se por satisfeito, quase desligando o computador, quando viu a janela do MSN aberta, com a senha no automático. Não teve escolha... Entrou e ativou o registro de históricos das conversas. A armadilha estava pronta. Não era difícil de cair nela. Era só uma questão de tempo para Vilmar cair na armadilha e Guilherme descobrir o que Vilmar fazia, e fazia questão de manter escondido. Boa coisa não era. Guilherme já desconfiava. A relação já estava abalada desde então...


Os fatos
Guilherme foi paciente, precisava recolher muitas provas, e que essas fossem concretas. Voltou ao “escritório” do pai duas semanas após ter-lhe colocado uma armadilha. E “voilà”! Tudo estava à sua vista, tudo aquilo que Guilherme não queria que se confirmasse. Tudo o que foi escrito nas salas de bate-papo neste intervalo de duas semanas, realmente, era bem suspeito. Nas conversas, Vilmar perguntava para mulheres suas idades, local em que moravam, o que faziam, pedia seus contatos, e passava o endereço do MSN.

A segunda etapa era revirar os históricos do Messenger. Bastou abrir o primeiro histórico para que confirmasse algumas de suas suspeitas: ler que seu pai marcava encontros com outras mulheres e aquilo foi o bastante para Guilherme esquecer que seu pai tivesse um pouco, que fosse, de dignidade.

Guilherme só sabia de uma coisa, que a mãe não merecia passar por aquilo. Não podia deixar que nada magoasse sua mãe e resolveu agir. Resolveu colocar Vilmar contra a parede, deu um ultimato e foi bem direto: “Eu sei o que você anda procurando na internet”. Ele contou que o pai arregalou os olhos, assustado e permaneceu calado. “Por que?”, questionou Guilherme. Vilmar não negou. Na verdade, não teve nenhuma reação. Os fatos falavam por si próprios. Gaguejou, mas acabou confessando.
Foi dado um ultimato a Vilmar. Uma semana era seu prazo para que confessasse tudo para Dona Nalva. Caso contrário, Guilherme contaria.


A relação abalada
Após o fim do tempo que Vilmar tinha, contou para Guilherme que havia conversado com Dona Nalva. Ele já sabia, pois chegou a ouvir por detrás da porta trechos da conversa entre os dois, mesmo que fosse constrangedor. O pai contou a Dona Nalva que havia fraquejado. Dona Nalva só foi capaz de perguntar se era aquilo mesmo que Vilmar queria.

Dona Nalva foi capaz de perdoá-lo. Tudo, aparentemente, voltou ao normal entre a família. Mas entre Guilherme e Vilmar, não. Quase nada restou. A relação ficou abalada. Só sobrou a educação do “bom dia” e conversar sobre assuntos básicos, como a mensalidade da Universidade. Guilherme não se refere ao pai como pai, o chama pelo nome. Não confia mais no pai, não acredita no que ele diz. Vilmar, por muitas vezes, tenta estabelecer uma relação de pai e filho com Guilherme, mas permanece frustrado, pois, para Guilherme, confiança é uma só. “Sorte a dele que não puxei isto da minha mãe”, encerra Guilherme.

Um comentário:

  1. Mari, ficou muito bom! Adorei a entrevista. Quando precisar, sabe que é só chamar (:

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