quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Aquele beijo

por Beatriz Backes

Aos 16 anos, todos os seus amigos já tinham beijado alguém. Ele estava esperando a pessoa certa. “Não que eu quisesse casar com a primeira pessoa que beijasse, mas não queria desperdiçar esse momento especial, do qual eu me lembraria o resto da vida, com uma pessoa qualquer”. Para Felipe, tinha que ser especial.

Em janeiro de 2008, ele foi passar as ferias da escola em Três Corações, onde alguns de seus parentes moram. A terra do Pelé, como ele mesmo diz. Hoje, a cidade lhe traz recordações de sua infância e seu crescimento. E ele guarda uma grande lista de amigos de lá, talvez maior do que a de amigos de sua própria cidade, São Paulo.

Como a cidade é pequena, a diversão de Felipe e de “um bando de adolescente”, como ele mesmo coloca, que ainda dependem da permissão dos pais era ficar em casa, assistindo filmes, brincando com jogos de tabuleiro e videogames, tocando violão, cantando e ressuscitando brincadeiras "antigas".

E foi em uma dessas brincadeiras na casa dos amigos que ele viu as coisas mudarem de figura. “Eu nunca tinha ficado com ninguém, nem meninos nem meninas, mas já sabia que os meninos me atraiam muito mais. Era como se eu só estivesse esperando para ter a confirmação”.

Dentre seus amigos, Marcelo se destacava. Pouco eles tinham conversado, mas a impressão que ele passara em Felipe já fora o suficiente para que este o considerasse uma boa pessoa e extremamente bonito. E essa influência era forte o bastante para que Felipe se sentisse envergonhado em se aproximar e conversar com ele – algo diferente de seu feitio normal.

Em uma de suas tardes de férias, ele se reuniu aos amigos na casa de um deles para uma nova sessão de brincadeiras. Ao escurecer, a sugestão foi a clássica “Gato Mia”. A diferença deste dia para os demais era a proximidade entre Felipe e Marcelo naquele dia. “Apesar do frio na barriga que eu sempre sentia quando estava perto dele, eu conseguia conversar com ele sem tremer”.

Durante uma das rodadas, Felipe ficou sem esconderijo. Marcelo e uma outra amiga estavam agachados atrás de um armário e ele decidiu que iria para lá também. O espaço que já era pequeno para duas pessoas, se tornou minúsculo para três.

Felipe ficou frente a frente com Marcelo. O pegador esbarrou em alguma coisa, fez barulho e assustou Felipe, que se desequilibrou. Marcelo o segurou e gesticulou pedindo silêncio. Nada disso importou para o menino que quase estragara a brincadeira com seu jeito assustado. O contado da pele de Marcelo com a sua lhe causou um arrepio. Ele sentiu uma corrente elétrica percorrer seu corpo em frações de segundos.

Em uma outra rodada da brincadeira, Felipe e Marcelo acabaram se escondendo no fundo de corredor. Enquanto o pegador se movia, os dois se aproximavam mais e mais. Até que o primeiro não tinha mais para onde ir e eles se viram frente a frente mais uma vez, perto o suficiente para que um sentisse a respiração do outro.

Quem deu o primeiro passo, ele não sabe dizer. “Foi algo tão natural!... Eu estava tão envolvido no momento que esqueci do mundo – e inclusive do pegador vendado que estava perto de nós”.

A chamada para a realidade veio com o esbarrão que a terceira pessoa na cena deu em um interruptor e que acendeu a luz do local.

Não houve choque ou arrependimento ter acontecido com um garoto. “Foi tão simples que eu só estava pensando em como eu tive sorte por ter dado meu primeiro beijo em alguém especial”.


Felipe ainda diz que teve crises de identidade na vida, “mas a partir daquele momento eu tive muita certeza de quem era e do que queria. Eu sabia que tinha mais para "experimentar", mas não fiquei preocupado com isso e deixei as coisas acontecerem”.




Qual a relação do vídeo acima? Essa é uma de suas peças de teatro favoritas e foi um dos DVDs selecionados para a viagem de férias por Felipe. Nenhum de seus amigos de Três Corações tinha assistindo ainda. Ela reaviva o momento por resumir o que foi o mês de janeiro de 2008 para Felipe: muitas risadas, diversão boba de adolescentes e bem estar. E também por ele ter assistido a ela com Marcelo, de mãos dadas por baixo de um edredom.




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