segunda-feira, 24 de outubro de 2011

A Missão

Por Michelle Borges


O dia estava quente e ensolarado, e a música tipicamente boliviana soava alto. Os vendedores atendiam os seus clientes da forma mais atenciosa possível. O cheiro de comida exalava. Era hora do almoço.

Em uma barraca de DVDs pirata, logo ao lado, pendurado no suporte, algo diferente chamava a atenção dos transeuntes: um tipo de quadro metálico com figuras cujos traços indicam a arte andina. Logo abaixo, pendurados, se encontravam alguns amuletos da sorte.

- Qual é a sorte?

- Como? – perguntei, assustada, ao homem que surgiu abruptamente na minha frente.

- Qual é a sorte? – perguntou novamente. No olhar uma expressão que indicava que seu questionamento era óbvio, assim como a sua resposta para tal.

Continuei parada, sem compreender absolutamente nada e com um ponto de exclamação imaginário desenhado na minha testa. Sem esperanças, o homem respondeu:

- Nenhuma. Você faz a sua sorte. Muita gente pensa que o amuleto traz sorte, mas na verdade, nós levamos a sorte à ele.

E foi assim que conheci Inti Roman. Na feira da Kantuta, situada no Pari, próximo à estação de Metrô Armênia, na central de São Paulo. O local é uma espécie de ponto de encontro de bolivianos que vivem na capital paulista, onde podem entrar em contato novamente com a cultura de sua terra natal e encontrar pessoas, que como eles, vieram ao Brasil para tentar uma sorte melhor na vida.



Inti Roman é um índio da Nação Ketchua e quando perguntado sobre o seu país ou cidade de origem, sua resposta foi tão direta que a minha primeira reação depois de ouvir foi levar um susto, e depois sorrir. Para mim, aquele homem só podia estar de brincadeira. Eis a recriação do diálogo:

- De onde o senhor vem?

- Do mesmo lugar que você: do Planeta Terra.

Depois do choque, entendi que a minha compreensão do mundo e a de Inti Roman são completamente diferentes. Ele não se denomina boliviano, mas sim um cidadão do mundo, pois compreende que o planeta é de todos, e que essa separação por territórios e países só serve para criar as diferenças, o preconceito e a intolerância.

Natural de Cochabamba, situada na região central da Bolívia, Inti Roman era um artista. Fazia música e também os seus quadros em metal para, assim, difundir a arte milenar andina. Tudo isso mudou há 15 anos, quando recebeu o seu chamado espiritual para o xamanismo.

Após “tomar uma planta”, Inti Roman teve uma visão, que lhe dizia o que deveria fazer e qual era o seu destino. Ele deveria vir a São Paulo, onde iria realizar palestras sobre o xamanismo.

Por isso ele vai à feira da Kantuta todos os domingos. Não só para divulgar a sua arte, mas também para fazer contatos. O xamã conta que antes de receber o seu chamado, ele já conhecia São Paulo, pois costumava vir à cidade para comprar os metais para a sua arte. Ele passava correndo pelas ruas, pois sentia uma energia negativa no ar.

Ele não tem critérios para escolher os lugares onde realizará suas palestras ou as pessoas a quem deverá falar. Ele compreende que é importante não ter preconceitos tanto de quem fala, como de quem ouve. Ele também menciona que a cultura andina perdura há muitos milênios e que desde o seu surgimento, não sofreu alterações, sendo incompreendida e encarada muitas vezes de forma ignorante pelo mundo ocidental. Por isso, sempre distribui os seus cartões de contato, para que as pessoas possam perceber o xamanismo modifica a vida e a visão de mundo das pessoas.

Grande conhecedor também de astrologia, o boliviano identifica o chamado signo astrológico de um pessoa e consegue definir sua personalidade através dele e do comportamento. “Eu escolhi o signo da minha filha. Queria que ela fosse sagitariana”, comenta ele.

Inti Roman divide a sua vida em dois momentos: antes e depois do chamado que recebeu. A partir dele, mudou de cidade, de pais, de idioma e profissão. Sua nova missão de vida é transmitir uma nova percepção do mundo, a partir do conhecimento de seus ancestrais e de plantas expansoras da consciência.


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