Beatriz



Beatriz Backes - tenho mais dois sobrenomes, mas sempre usei mais esse por ser diferente. Tenho 20 anos e sou uma jornalista em formação. E isso sempre foi o que eu quis para mim.
Mas, confesso que tive uma outra paixão.

O pendurar das chuteiras


Quando tinha dois anos, me apaixonei a primeira vista. E não foi aquela famosa história do amor infantil. Me apaixonei pela dança.

Minha irmã mais velha tinha começado a frequentar aulas de ballet clássico e eu, como uma boa irmã caçula, sempre a copiava em tudo. Mas só tive a oportunidade – ou licença médica – para dançar aos 4 anos de idade.

Desde então, foi um amor que só cresceu. Longos e doces 15 anos, que evoluiu do ballet clássico para o sapateado americano e para o ballet contemporâneo. De segunda à segunda, feriados, dezesseis horas por dia, em São Paulo e em outras cidades. Essa foi a minha rotina adorada.

Durante todo esse tempo, cultivei lindas amizades que, com certeza, tiveram grande influência no que sou hoje. Mas também, sempre soube que esse não seria meu futuro, afinal, essa não é uma carreira muito promissora e o meu amor por histórias também sempre foi muito grande.

O meu “pendurar de chuteiras”, ou a minha aposentadoria, começou muito antes do que eu esperava e de uma forma que eu jamais desejei. Durante um ensaio para mais uma apresentação, virei meu pé direito, rompi três ligamentos do tornozelo e ganhei dois meses de “molho”. Longos 60 dias sem por o pé no chão e andando com ajuda de muletas.

Além de ter ficado longe do que eu mais gostava de fazer, uma das piores partes foi ter de dar aulas de ballet para a turma das crianças daquele jeito e me afastar de algumas das pessoas que eu mais gostei.

Depois desse período – que, confesso, foi o que eu melhor me comportei em toda a vida – voltei à ativa, mas sabia que nunca seria como antes, ainda que para ter uma das melhores experiências que uma bailarina pode ter: ser coreografada por russos e dançar ao som de uma orquestra.

Esse sim era o final perfeito para uma carreira. Mas, teimosa como sou, tentei estender por mais um ano. E foi somente o que fui capaz de fazer. A jornada de bailarina é completamente incompatível com a vida universitária, principalmente com a jornalística.

Sim, esse foi um momento muito difícil, porque, afinal, não se abandona 15 anos de vida sem nenhuma lágrima derramada. Mas, como dizem os antigos, quando uma porta se fecha, outra se abre.

E foi exatamente o que aconteceu: dediquei o meu “tempo livre” no aprendizado da minha futura profissão, para que pudesse “colher os frutos”. E após exatamente mais doze meses, ingressei na área jornalística que menos esperava: o rádio.

E a mudança foi total. O vazio existencial foi e é completamente ocupado por coisas diferentes a cada dia e, sempre, pelo sentimento de gratificação por fazer algo fundamental para pessoas que você nem mesmo sabe quem são, mas que te admiram mesmo assim.