quarta-feira, 23 de novembro de 2011

A construção da utopia


Por Michelle Borges

O feriado de páscoa é sempre uma alegria para os universitários. Representa uma quebra no ritmo dos estudos, um período para relaxar, ir para a praia, curtir com os amigos e comer muito chocolate. Paula adora todas essas coisas, mas na páscoa de 2011 resolveu fazer algo diferente. Sempre quis fazer trabalho voluntário, e quando sua amiga lhe contou sobre “Um Teto Para o Meu País” e o trabalho que a organização realizava, não pode deixar a oportunidade passar. Além disso, sacrificar um feriado na companhia dos amigos não lhe soou como uma grande perda.

Ao chegar à Favela do 21, uma comunidade localizada ao lado de um lixão em Carapicuíba, Paula experimentou um choque de realidade. Recebeu as instruções necessárias para o início do trabalho e ficou designada a construir a casa onde Dona Ana e suas duas filhas - a adolescente Cássia e a pequena Gigi – iriam viver. Paula sempre adorou crianças, e Gigi, com apenas três anos de idade, era a coisa mais encantadora que já vira até aquele momento. As duas logo se tornaram amigas.

Gigi pegou Paula pela mão, convidando-a para brincar no depósito de lixo. A reação da jovem foi de susto, afinal, era impossível descrever tudo o que havia lá. De forma completamente involuntária, advertiu a criança:

- É perigoso brincar aqui. Você pode ficar doente.

A menininha, em sua inocência típica da idade, apenas olhou para Paula e respondeu:

- Tia, pode ficar despreocupada que aqui nem tem coba.

Sem sombra de dúvidas a sensação que teve após escutar essa resposta foi uma das piores que sentiu em sua vida. Só conseguia pensar em como as condições daquela comunidade eram precárias. Crianças – quase todas com as barrigas saltadas e estufadas de verme – brincando em lixões a céu aberto e a impossibilidade de definir a origem da água ingerida pelos moradores – se é encanada, ou não; se é tratada, ou não.

Paula, segurando a pequena Gigi, com outros jovens e Dona Ana

Diariamente, voluntários universitários e jovens profissionais da América Latina lideram “Um Teto Para o Meu País”, realizando a construção de casas para as famílias de assentamentos irregulares e favelas. O objetivo dessa proposta é melhorar a qualidade de vida desses moradores que vivem em situação de pobreza, e ao mesmo tempo denunciar a realidade de milhões de pessoas em todo o continente, envolvendo a sociedade e reduzindo a exclusão social.

Paula entende a ação como um “vamos construir e refletir a sociedade em que vivemos”. Desde que entrou para o Teto, como gosta de chamar a ONG, a sua vida mudou. Seus pais sempre lhe ensinaram a não se conformar com as injustiças, a lutar pelo que é certo e a não julgar. A experiência nas construções lhe ajudou a colocar tudo o que aprendeu em prática. 

Durante a construção em Carapicuíba, ela entrara em contato com uma realidade completamente diferente daquela a que estava habituada; durante três dias viveu a vida daqueles moradores.


- Vivenciar isso por três dias é difícil, e as pessoas que estão aqui há anos? – pensou se questionando.


Com Ingrid, na construção de agosto
Quando perguntada sobre como é saber que está ajudando alguém, Paula respondeu de forma sincera:


- É a melhor sensação do mundo. Ver o sorriso no rosto da família quando entregamos a casa é fora do real. Principalmente, ao olhar para a casa e saber que eu ajudei a construir com a ajuda dos meus amigos. É indescritível.





O Teto mudou a sua maneira de analisar e refletir a sociedade e agora ela é uma pessoa menos alienada e injusta. Ela está decidida a continuar participando do Teto sempre que puder.

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