quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Cidadão Brasileiro

Por Michelle Borges
Com a mãe, no dia da formatura, em 1985.

“Podem me chamar de qualquer coisa, menos de medroso”.

Com essa frase, o advogado autônomo Enéias Teles concluiu o seu depoimento. Nascido no interior de Minas Gerais, mais precisamente na cidade de Teófilo Otoni, sua história é a do típico brasileiro que sai de uma cidade pequena e busca as melhorias oferecidas pela vida nos grandes centros urbanos. “Meus pais são baianos, e como meu pai passou em um concurso público em Teófilo Otoni, minha família morava lá. Quando tinha três anos de idade, minha família se mudou para Vitória da Conquista, no sul da Bahia”.

Apesar de viver em condições humildes, Seu Isaurino e Dona Ornelinda sempre fizeram o possível para que seus filhos – quatro meninos e duas meninas – tivessem acesso à educação e uma infância normal dentro dos padrões das décadas de 1960 e 1970. Foi em Vitória da Conquista que Enéias aproveitou os seus dias de criança, se divertindo com os amigos e irmãos, e frequentando, até a 5ª série, o Centro Integrado de Educação Professor Luiz Navarro de Brito. Depois passou a estudar no Instituto de Educação Euclides Dantas, onde permaneceu até o primeiro ano do segundo grau.

Ele conta que, aos 15 anos trabalhou por um breve período como ajudante de sapateiro e, mais tarde como vendedor de jornal para ajudar nas despesas da casa e para ganhar experiência. “Do dinheiro que ganhei vendendo jornal, meu pai ficou com tudo e comprou apenas uma camisa branca para que eu usasse na escola”.

“Eu nunca tinha pensado muito no que eu gostaria de ser até quando completei 16 anos de idade”. Foi então que, em razão de seu envolvimento com a igreja (ele frequentava a Igreja Adventista do Sétimo Dia), resolveu que seria pastor e que, para isso, precisaria se mudar para um internato em São Paulo, onde iria concluir o segundo grau e iniciar o curso de teologia. Dois meses depois de completar 17 anos, Enéias começou a perseguir o seu sonho quando surgiu a oportunidade de se mudar para a capital paulista, e assim abandonou a pequena cidade no interior da Bahia.

O ano era 1979. O Brasil enfrentava os anos derradeiros da Ditadura Militar, então sob o comando do presidente João Figueiredo, e ainda sofria com os efeitos da Crise do Petróleo, que assolou o mundo no início daquela década. Apesar de estar inserido naquele contexto de dominação militar, Enéias pouco se lembra de estar vivendo em uma ditadura, e conta que só teve conhecimento do cenário político brasileiro, quando chegou a São Paulo. “Gostava muito do Chico (Buarque), naquela época ele estava voltando para o Brasil, mas eu não entendia o que estava acontecendo e gostava do Chico porque gostava”. Uma das músicas do cantor e compositor que costumava escutar era “Apesar de Você”. Aquela que diz “amanhã vai ser outro dia”.

“Eu tenho certeza de que se não tivesse vindo para São Paulo naquela época, eu não teria conseguido as coisas que eu consegui: constituir uma família, um pequeno patrimônio e também a oportunidade de fazer outra faculdade – de Direito”, conta. Ele explica que após um tempo trabalhando em uma instituição religiosa, muitas razões o levaram a um desentendimento com uma pessoa e, por esse motivo, acabou perdendo a sua posição na instituição.  “Na época, eu tinha o curso básico de contabilidade, e passei a trabalhar com isso para dar sustentação para a minha família e mais adiante eu comecei a fazer o curso de Direito à noite”.

Um fato curioso é que, apesar de sua esposa ser de Vitória da Conquista, eles só se conheceram no internato. Assim como Enéias, Graciane também veio para São Paulo para fazer faculdade – no caso dela, de enfermagem. “As coisas só aconteceram porque estávamos aqui em São Paulo”. Ele afirma que poderiam ter se conhecido naquela pequena cidade, mas possivelmente não teriam namorado. 
Enéias com a esposa, Graciane, em uma escuna em Itapema, SC, 1985


Atualmente, aos 49 anos (hoje é seu aniversário!), Enéias vive há 26 com a sua esposa, com quem teve duas filhas – a mais velha com 21 anos e a mais nova com 18 – que estão em fase universitária. No rosto, a expressão de missão quase cumprida no que diz respeito à criação de suas meninas, que “já estão praticamente preparadas para encarar a realidade futura por elas mesmas”.

Ao se lembrar de tudo o que viveu até hoje, Enéias classifica a sua vinda para São Paulo como um fato marcante, um momento decisivo. Quando se pergunta como a sua vida teria sido sem a mudança para a cidade grande, a resposta que obtém é baseada no que aconteceu com muitos de seus amigos que permaneceram em Vitória da Conquista e que se tornaram balconistas, caminhoneiros ou desempregados. “Nada contra, mas não era o que eu queria para a minha vida. Foi muito importante eu tomar essa decisão (de se mudar para São Paulo) naquela época. Minha família não tinha condições de me conceder aquilo que acabei conseguindo aqui. Vale dizer que São Paulo é uma cidade de oportunidades”.



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